Explorações agrícolas são nova atração turística na ilha Terceira
1 de set. de 2025, 16:50
— Lusa/AO Online
“Os Açores são um sítio belíssimo
para vir passar férias e quem vem quer ver coisas diferentes. Este é um
dos produtos ‘top’ na ilha Terceira. É sem dúvida algo que vai ficar
sempre na memória dos turistas”, afirma, em declarações à Lusa, Anselmo
Pires, um dos produtores que integram o projeto.Filho
e neto de agricultores, Anselmo tornou-se um dos primeiros produtores
de leite biológico em Portugal, em 2017, e quando a Câmara Municipal de
Angra do Heroísmo lançou a Rota do Leite e do Queijo decidiu abraçar um
novo desafio.O projeto arrancou em maio de
2024, mas o produtor só recebeu os primeiros turistas no final de
setembro. Desde então, já passaram pelas suas pastagens mais de 500
pessoas.“Nunca pensei que tivesse tanta
afluência de público, mas felizmente está a correr bem e acho que ainda
tem muito para crescer”, aponta.O dia de
Anselmo – que a Lusa acompanhou no sábado -, começa pelas 07h00, quando ordenha as vacas, pela primeira vez.
Entre as tarefas essenciais para manter a exploração, recebe turistas
curiosos para descobrir um mundo diferente do seu.Às
10h30, chega à pastagem o primeiro grupo, com seis adultos e três
crianças. O céu está limpo e ao fundo avista-se a cidade da Praia da
Vitória, banhada pelo mar.Encontram um quadro típico da paisagem açoriana: um manto verde de terrenos divididos por muros de pedra.As vacas, maioritariamente de raça Holstein Frísia, são malhadas de preto e branco, como é mais comum no arquipélago.Briosa, de raça Jersey, toda preta, vem esperar os turistas à entrada.“Quando
vê chegar alguém estranho, deixa de fazer o que está a fazer e vem ter
com os turistas. Ela está já com a ideia de comer mais alguma ração”,
explicou o agricultor.E prosseguiu: “É muito mansinha. De dois anos para cima qualquer criança consegue ordenhar aquela vaca”.A
exploração conta atualmente com 32 vacas, que Anselmo consegue
distinguir e que olham na sua direção quando as chama pelo nome.Enquanto
Briosa se vai aproximando dos turistas, a pedir um afago, o agricultor
explica que a ordenha é feita duas vezes por dia, faça chuva ou faça
sol, e que as vacas, chamadas de ‘felizes’, desde uma visita
presidencial de Cavaco Silva aos Açores, passam 365 dias por ano ao ar
livre, com uma alimentação maioritariamente à base de erva.Respondidas
todas as perguntas, é hora de passar à parte mais aguardada pelos mais
novos e por Briosa, que já espera no local pela ração.Anselmo
Pires mostra como se ordenha à mão, com a destreza de quem o faz desde
criança. Os adultos têm algumas dificuldades em replicar, mas a pequena
Maria, de quatro anos, aprende à primeira.Depois
de provar o leite, os aprendizes de agricultores passam ao próximo
terreno, onde Meia Lua, uma pequena vitela de dois meses e meio, aguarda
ansiosa por um biberão de leite.É a
segunda bezerra da exploração batizada por turistas, depois de Gisele,
que recebeu o nome de uma participante que comemorava o aniversário no
dia do seu nascimento.Anselmo já recebeu turistas de África do Sul, América, Canadá, Brasil, França, Eslovénia ou Índia.Muitos chegam com crianças, mas já houve quem celebrasse aniversários e até despedidas de solteiro na sua exploração.A
visita termina com uma mesa cheia de petiscos. Há sandes de Alcatra
(prato típico da ilha), queijo fresco feito com o leite da casa, doces
caseiros e enchidos.O projeto envolve toda
a família. Donzília, a esposa do produtor, confeciona os doces e
Gabriela, a filha, de 12 anos, faz as explicações em inglês para os
turistas estrangeiros.“Eu não acho que esta vida de vacas seja para mim”, confessa Gabriela, ainda sem saber bem que profissão quer ter.“Gosto da interação, gosto de saber o ‘feedback’ das pessoas, o que é que elas gostam de fazer”, adianta.Entre
as histórias que coleciona, lembra um grupo de indianos que visitou a
exploração e que, no fim, se benzeu com a cauda da vaca.“A gente não pensava que alguém ia pagar para ver vacas. A minha avó até dizia: eu pagava para não ir”, brinca.Com
quase 80 anos, João Pires, pai de Anselmo, também se junta, sempre que
pode, para recordar os tempos em que subia àqueles terrenos a pé ou de
burro para ordenhar vacas, quando ainda não existiam máquinas. “Ainda
gosto de vir vê-las. Fui criado nisto”, justifica.Numa
vida inteira dedicada à terra, em momento algum lhe passou pela cabeça
que a profissão despertasse curiosidade de quem visita a ilha: “Nunca me
veio à ideia”.Para Anselmo Pires, esta é
uma oportunidade de os produtores agrícolas terem “algum retorno
financeiro” do turismo, que já beneficiava do “trabalho invisível” do
setor.“Os agricultores são os jardineiros
dos Açores e toda a gente vem porque quer ver a paisagem, o nosso
ordenamento do território, a manta de retalhos. Isto é feito com o
trabalho do agricultor”, salientou.E mesmo
quando não havia um produto criado, já havia interesse dos turistas:
“Acontecia estarmos a fazer o nosso trabalho, passarem carros com
turistas e fazerem-nos algumas perguntas. Alguns já entravam no
‘cerrado’ [terreno] e queriam tocar numa vaca”.Raquel
Marinho, jornalista e autora do ‘podcast’ “O poema ensina a cair”,
trocou por uma manhã os livros de poesia pelo contacto com a natureza.À
boleia da filha, descobriu a exploração de Anselmo Pires, onde
encontrou um produto ainda genuíno, em que a tradição se conjuga com a
contemporaneidade.“Fomos muito bem
recebidos, com muita simpatia e carinho. Não é só uma mostra que já está
automatizada pelas pessoas que nos recebem, não é uma coisa muito
turística. Gostava de pensar que se vai manter com grupos pequenos para
podermos ter esta atenção e esta disponibilidade”, disse à Lusa.Ainda
que já associasse os Açores aos seus produtos lácteos, a visita fê-la
despertar para o leite biológico de que Anselmo fala com tanto orgulho.“Quando chegar ao supermercado já vou olhar para esta marca de leite e vou comprar”, promete.Também
Filipa Silva, advogada em Lisboa, admitiu sair da exploração com outra
imagem dos produtos: “Já tinha visto este leite biológico e não sabia o
que isto implicava. Agora já se percebe a expressão que tanto ouvimos
das ‘vacas felizes’”."Acho que a pessoa ao
ter este tipo de experiências tem oportunidade de perceber que a
produção de um litro de leite que nos chega a casa tem um esforço
implícito das pessoas que têm de acordar às 06:00 para vir até aqui,
seja quais forem as condições atmosféricas que tenham de enfrentar”,
referiu, por sua vez, Pedro Roma.O casal
trouxe Maria para ver as vacas que marcam a imagem dos Açores e para as
quais a menina de quatro anos olha fascinada, ignorando a conversa.“É um paraíso, um outro ritmo, a paisagem, o ambiente. É uma calma que eu acho que não tem preço”, sublinhou Filipa.De
visita aos Açores pela primeira vez, o alemão Kay Hage, a mulher e os
filhos gémeos de 10 anos, quiseram participar numa atividade que
permitisse ter contacto com animais e com as tradições do arquipélago.O casal alemão queria também dar a conhecer aos filhos uma profissão com história na família.“O
avô deles produzia leite. Agora está reformado. Há alguns anos produzia
cerca 80 mil litros de leite por dia. Ele era responsável por uma
quinta com 1.500 vacas”, conta Kay.Anselmo
Pires acredita que ainda há muita gente que passa pela ilha Terceira
sem saber que a Rota do Leite e do Queijo existe, mas está confiante no
sucesso do produto e que chegará a outras ilhas.“Eu
acho que cada vez vai ter mais aceitação. As pessoas procuram a
genuinidade dos produtos, a forma como recebemos. É uma experiência que
cria memórias”, referiu.