Ex-presidente da agência espacial portuguesa aponta falta de "massa crítica" à indústria
15 de set. de 2020, 10:36
— Lusa/AO Online
Chiara Manfletti - que cessou
funções como presidente da Portugal Space na segunda-feira, um pouco
"mais cedo" do que previsto, por "razões pessoais" - fez, em entrevista à
agência Lusa, um balanço do seu mandato, que terminaria no fim de 2020,
mas que classificou como "ótimo". A
engenheira aeronáutica italo-alemã, que esteve cerca de ano e meio na
liderança da agência espacial portuguesa, regressa à Agência
Espacial Europeia (ESA), onde vai dirigir, na Holanda, o Departamento de
Políticas e Programas, que tem a incumbência de definir as políticas e
os programas futuros para o espaço na Europa. Chiara
Manfletti, que foi consultora do diretor-geral da ESA, considera que o
setor do espaço em Portugal "é vibrante" e está a crescer, com o país a
ser reconhecido no exterior como um local para desenvolver projetos.A
ex-presidente da Portugal Space disse, sem nomear, que há "muitas
empresas" estrangeiras que "querem vir para Portugal" e estabelecer
"parcerias com empresas portuguesas".Segundo
a engenheira aeronáutica, Portugal está, por isso, em melhores
condições para competir com outros países europeus, mas, acima de tudo,
para colaborar e ser um "parceiro de confiança".O
facto de Portugal ter uma agência espacial, copresidir ao Conselho
Ministerial da ESA, órgão governativo, ter uma agenda política para o
espaço e de assumir em janeiro de 2021 a presidência do Conselho da
União Europeia torna o país "um parceiro sólido e reconhecido por outros
países".Para Chiara Manfletti, o que está
a faltar ao país, para que possa estar entre os melhores no setor do
espaço, é a "massa crítica na indústria" nacional.A
presidente cessante da agência espacial portuguesa entende que o
envolvimento das empresas portuguesas em projetos de fôlego com raiz em
Portugal, como a construção de uma constelação de microssatélites para
observação da Terra, permitirá capacitá-las e torná-las fornecedoras de
serviços ou, mesmo, líderes em segmentos de negócio.Justificando
a importância do investimento no setor, Manfletti assinalou que o
espaço "fornece soluções para outros setores" da economia, como
transportes e energia, "beneficiando o país como um todo" e potenciando
novos empregos. Portugal fixou como meta
para o setor espacial, em 2030, a criação de mil postos de trabalho e
uma faturação anual de 400 a 500 milhões de euros nas empresas.A
antiga líder da Portugal Space defende que o país, apesar de não ter um
programa de exploração do espaço, "em parte" devido à falta de recursos
financeiros, "tem sido inteligente" ao participar em missões
científicas europeias com esse fim, nomeadamente nos domínios da física
solar, dos planetas extrassolares (exoplanetas) e do clima espacial. Chiara
Manfletti considera ainda que Portugal "pode ser ativo" na produção,
por exemplo, de novos materiais, testados em ambiente de microgravidade.
O arquipélago dos Açores, para onde está
prevista a construção de uma base espacial para lançamento de pequenos
satélites, na ilha de Santa Maria, é apontado pela ESA como uma das
localizações adequadas para a aterragem do Space Rider, um veículo
reutilizável de transporte de carga que permite fazer experiências na
órbita terrestre baixa durante dois meses, como testar tecnologias de
observação da Terra, de exploração robótica e telecomunicações.Manfletti
acalenta, neste contexto, um sonho para Portugal: Que os Açores possam
promover voos suborbitais e serem uma região de turismo espacial.Quanto a haver astronautas portugueses, responde, questionando: "Porque não?""Na
verdade, é muito simples. Há concursos europeus. Se muitos portugueses
se candidatarem, as hipóteses de serem selecionados aumentam", sublinha.
Chiara Manfletti foi condecorada na
quinta-feira pelo Governo com a Medalha da Defesa Nacional de 1.ª classe
pela "forma exemplar" como desempenhou as suas funções na Portugal
Space, uma distinção que a deixou "profundamente honrada". Uma
das missões da Portugal Space, constituída em março de 2019, visa
promover novas atividades e negócios no setor espacial, em particular na
observação da Terra com pequenos satélites, e facilitar uma maior
participação do país nos programas europeus, da ESA e da União Europeia.
Sobre a sua estada em Portugal, a
engenheira aeronáutica, com dupla nacionalidade italiana e alemã,
resumiu-a como "uma aventura maravilhosa".