Ex-carro oficial da Volkswagen fez reconhecimentos nos Açores
Histórias dos Rallyes
7 de fev. de 2025, 10:25
— Rui Jorge Cabral
“Não há rali nenhum que não seja ganho nos reconhecimentos”, afirma ao
Açoriano Oriental o piloto que já foi três vezes campeão dos Açores de
ralis, Luís Miguel Rego, do Team Além Mar. Os reconhecimentos são a
altura antes do rali começar em que, com apenas duas passagens, se tiram
as notas de andamento para os troços cronometrados. E foi precisamente
com um carro de reconhecimentos muito especial, que pertenceu à equipa
oficial da Volkswagen no WRC, que Luís Miguel Rego pôs em prática nos
últimos anos esta máxima de que os ralis começam a ganhar-se num bom
reconhecimento dos troços.O carro é um VW Golf R, que foi
especialmente preparado pela Volkswagen Motorsport para servir de
viatura de reconhecimentos para os seus pilotos oficiais. Recorde-se que
a Volkswagen correu oficialmente no WRC entre 2012 e 2016, no primeiro
ano com um Skoda Fabia S2000 e, a partir de 2013, com o Volkswagen Polo R
WRC, tendo conseguido quatro títulos mundiais consecutivos com a famosa
dupla Sebastien Ogier / Julien Ingrassia.O carro que tem sido usado
por Luís Miguel Rego para reconhecimentos no Campeonato dos Açores de
Ralis tem o nº 7 e foi utilizado por Andreas Mikkelsen, vencedor por
duas vezes do Azores Rallye.Quando a equipa oficial da Volkswagen
encerrou a sua atividade no WRC, o carro veio para Portugal onde terá
primeiro sido utilizado pelo ex-campeão nacional Pedro Meireles e mais
tarde pelo piloto Manuel Castro e a sua equipa Racing 4 You, antes de
Luís Miguel Rego o adquirir e trazê-lo para os Açores.Por fora, o VW
Golf R parece um normal carro de estrada em versão desportiva. Mas por
dentro, é um autêntico carro híbrido de ralis. Tem cerca de 300 cavalos
de potência, quatro rodas motrizes, uma caixa automática com patilhas,
para que o piloto não tire as mãos do volante - que é de competição - e
está equipado com um rollbar de ralis, para além de um fundo plano para
proteger o carro e até faróis auxiliares para situações de pouca
visibilidade ou noturnas.E para além de todos os equipamentos de
medição de distâncias (Terratrip), intercomunicadores piloto/navegador e
câmaras para filmar os reconhecimentos, o VW Golf R veio ainda equipado
com kits para terra e asfalto, possui um reservatório de reserva de
combustível e, para conforto de piloto e navegador durante os dias
longos de reconhecimentos, tem ainda uma pequena geleira para guardar as
refeições, caso não haja tempo para parar para almoçar. Em
declarações ao Açoriano Oriental, Luís Miguel Rego afirma que este “é um
carro fantástico, que foi pensado ao pormenor” e que representa “o
melhor de dois mundos”, ou seja: “como passamos muitas horas dentro do
carro de reconhecimentos, temos um conforto que é fundamental”, de que
são exemplos os estofos originais e o ar condicionado, mas também “temos
tudo o que precisamos da parte da competição para nos aproximarmos o
máximo possível de um carro de corridas”.Um exemplo disso é a
utilização de suspensões apropriadas para terra ou asfalto. Contudo, se
nos reconhecimentos não se pode andar depressa, para que serve uma
suspensão de corrida? Luís Miguel Rego explica: “Isto tem a ver com a
leitura do terreno”, ou seja, num carro normal, com suspensões
originais, o comportamento em estrada vai ser completamente diferente de
um carro de ralis. Em terra, por exemplo, “achamos que nunca temos
tração e vamos ter sempre uma leitura errada da estrada”, afirma o
piloto. Além disso, prossegue Luís Miguel Rego, “se tivermos um ressalto
na estrada, se eu for num carro normal, o impacto vai ser grande e pode
retirar-me confiança e dar-me uma imagem errada de ter de passar mais
devagar ali”.Pelo contrário, quando o carro de reconhecimentos tem
muitas das características de um carro de ralis, como é o caso do VW
Golf R ex-oficial, “com suspensões de competição, ao passar nesse
ressalto, não o sinto e, por isso, com o carro de corrida posso passar
ali sem qualquer problema”.E também ao nível da tração, ter as
mesmas quatro rodas motrizes do carro de ralis no carro de
reconhecimentos e suspensões de competição ajudam a “perceber melhor se
estamos num tipo de piso com muita ou pouca tração”, explica Luís Miguel
Rego. Ou seja, mesmo quando num carro com suspensões de corrida se
sente falta de tração, isso quer dizer “que precisamos de ajustar o
carro de ralis a essa situação”.Portanto, ter a ambiência de um
carro de ralis no VW Golf R permite a Luís Miguel Rego “uma preparação
mental para que, quando estivermos na partida para o primeiro troço,
tudo nos pareça mais natural do que se viéssemos de um carro do
dia-a-dia”. Isto porque, afirma o piloto, “se não fizermos um trabalho
de casa perfeito, posso ser rápido e logo a seguir cortar numa curva que
não deveria cortar e furar, o que não me vai servir de nada, porque não
vou conseguir materializar esta rapidez”. Depois de passar nos
Açores uma parte da sua rica história, o VW Golf R ex-equipa oficial da
Volkswagen está à venda e poderá encontrar proximamente um novo dono em
Portugal ou no estrangeiro. Contudo, o VW Golf R não vai sair da memória
de Luís Miguel Rego, para quem este carro foi uma autêntica ‘escola’
sobre como reconhecer bem um rali.