Ex-assessor disse não saber se Sócrates foi pago para influenciar após sair do Governo
Operação Marquês
Hoje 16:16
— Lusa/AO Online
Inquirido
como testemunha no julgamento do processo Operação Marquês, em Lisboa,
Vítor Escária confirmou que a partir de julho de 2011 José Sócrates lhe
pediu para interceder junto das autoridades venezuelanas para que estas
agilizassem os pagamentos devidos ao grupo Lena pela construção de
milhares de casas sociais no país sul-americano, mas frisou que
desconhecia os contornos da relação do antigo primeiro-ministro com o
grupo."Intercedeu muitas vezes, falou
muitas vezes. Não sei a que título ele o fazia", afirmou o economista,
admitindo que os pedidos de ajuda decorressem da amizade, de que se
apercebeu na altura, que existia entre José Sócrates e o empresário
Carlos Santos Silva, ligado ao grupo Lena e considerado pela acusação um
dos testas-de-ferro do chefe de Governo entre 2005 e 2011."Não
fazia a mínima ideia se ele ganhava [dinheiro]. Eu nunca tive
preocupação [com isso]. A vida de cada um é a preocupação de cada um",
acrescentou.Na acusação, o Ministério
Público alega que o grupo Lena terá retomado nesta altura alegados
pagamentos corruptivos a José Sócrates e que já teriam permitido ao
grupo Lena obter apoio privilegiado num concurso, em 2009, para a
construção de milhares de casas sociais na Venezuela.Hoje,
Vítor Escária insistiu que não se apercebeu de qualquer interesse
diferente de José Sócrates, quando era chefe de Governo, neste último
projeto."O perfil dele era aquele: De
acompanhamento de todos os processos, de pressionar para tudo o que ele
entendia que podia favorecer Portugal", defendeu.Na
inquirição, que começou na quarta-feira, o ex-assessor económico de
José Sócrates admitiu ainda ter trabalhado, a partir de 2014, como
consultor para uma empresa do grupo Lena, mas assegurou que, nesse
âmbito, nunca intercedeu por qualquer projeto na Venezuela.A
sessão de hoje foi a primeira em que a advogada oficiosa atribuída em
06 de janeiro ao ex-governante, Ana Velho, pediu esclarecimentos a uma
testemunha.Na quarta-feira, o tribunal
determinou que o julgamento decorrerá normalmente apesar da renúncia ao
mandato, na terça-feira, do advogado contratado em novembro por José
Sócrates, José Preto, com o arguido a ser defendido, até designar novo
mandatário, por Ana Velho.No despacho,
noticiado hoje pelo Observador e ao qual a Lusa teve também acesso, o
Tribunal Central Criminal de Lisboa justifica a decisão com o facto de a
renúncia ter sido apresentada como "forma de reação contra decisões
judiciais" e "para forçar a interrupção" do julgamento, o que não está
previsto na lei."Cabe naturalmente ao
Tribunal obstar a que o fim abusivo visado seja alcançado, como forma de
assegurar um efetivo (e não meramente formal) respeito da Lei",
sustentam as juízas Susana Seca, Alexandra Marques Pereira, e Rita dos
Reis Seabra.José Sócrates, de 68 anos,
está pronunciado (acusado após instrução) de 22 crimes, incluindo três
de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o
grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale
do Lobo.No total, o processo conta com 21
arguidos que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes
económico-financeiros que globalmente lhes são imputados.Os
ilícitos terão sido praticados entre 2005 e 2014 e no primeiro semestre
deste ano podem prescrever, segundo o tribunal, os crimes de corrupção
mais antigos, relacionados com Vale do Lobo.O julgamento começou em 03 de julho de 2025 e tem sessões agendadas pelo menos até 15 de julho de 2026.