“Europa mais ou menos aberta” é a “grande questão”
UE/Presidência
23 de nov. de 2020, 17:02
— Lusa/AO Online
O
ex-presidente da Comissão Europeia falava na qualidade de diretor do
Centro de Estudos Europeus do Instituto de Estudos Políticos da
Universidade Católica Portuguesa, que realizou hoje uma conferência que
contou, como orador, com o primeiro-ministro, António Costa, para
apresentar as grandes linhas da próxima presidência portuguesa da União
Europeia (PPUE), que começa em 01 de janeiro do próximo ano.Na
qualidade de moderador da conferência, Durão Barroso concordou com a
visão explicitada por António Costa sobre “o primado da política e dos
valores”.Antes, o primeiro-ministro tinha,
durante a sua intervenção, descrito o “debate essencial” que a União
Europeia tem de “travar”: “saber se a UE é sobretudo uma União de
valores fundamentais ou se, pelo contrário, é sobretudo um instrumento
económico para gerar valor económico”.É neste debate que está a resposta ao “obstáculo que está a ser criado” por Polónia e Hungria, concretizou Durão Barroso.A
aprovação do orçamento da UE para 2021-2027 e do Fundo de Recuperação
foi bloqueada pela Hungria e Polónia, que discordam da condicionalidade
no acesso aos fundos comunitários ao respeito pelo Estado de Direito.Húngaros
e polacos, sem força para vetar o mecanismo sobre o Estado de Direito,
que necessita apenas de uma maioria qualificada para ser aprovado,
vetaram então outra matéria sobre a qual não têm quaisquer reservas, a
dos recursos próprios, que requer, esta sim, unanimidade, bloqueando
todo o processo.Perante professores e
alunos da Universidade Católica Portuguesa, Durão Barroso recordou, na
abertura da conferência, que Portugal tem “um bom registo de
presidências” da UE.Para Durão Barroso, uma presidência é sempre um “elemento essencial da apropriação da UE” pelos Estados-membros.“Havia
quem pensasse que era melhor não haver [esta rotação entre
Estados-membros]. Eu continuo a pensar que é essencial que cada um dos
nossos países […] tenha, durante seis meses, a oportunidade de estar […]
na casa das máquinas da União Europeia”, destacou.Porém,
reconheceu, a presidência que Portugal assumirá no dia 01 de janeiro
terá “menos glória” do que as três anteriores (1992, 2000 e 2007), “em
que o país assumia mesmo o comando das operações”, o que mudou com o
Tratado de Lisboa e a nomeação de um presidente do Conselho Europeu.Mas
Durão Barroso concedeu que o cargo criado com o Tratado de Lisboa –
atualmente ocupado por Charles Michel – “dá uma continuidade ao Conselho
Europeu”, instituição que define as orientações e prioridades políticas
gerais da UE, “que é positiva, no essencial”.“Devemos,
na medida do possível, reforçar todas as instituições. Não é contra a
Comissão Europeia que o Conselho Europeu se reforça ou o Parlamento
Europeu se reforça”, frisou o antigo presidente do executivo comunitário
(2004-2014).A presidência portuguesa será ainda marcada pelo atual contexto, em que, “infelizmente”, a pandemia “vai marcar com certeza”.“O
problema não estará resolvido nos primeiros seis meses de 2021, apesar
das notícias encorajadoras sobre vacinas”, frisou Durão Barroso, que no
próximo ano assumirá a presidência da Aliança Global da Vacinação
(Gavi).Sobre as relações externas da UE,
Durão Barroso espera que haja “um ‘reset’” nas relações entre Estados
Unidos e União Europeia, mas sublinhou que “já havia tendências
anteriores” à presidência de Donald Trump que explicam “as dificuldades
de relacionamento” entre os dois blocos.De
qualquer forma, o presidente eleito dos EUA, “Joe Biden, é orgulhoso
das suas origens europeias” (irlandesas) e “vai com certeza proporcionar
um compromisso maior com o multilateralismo e a ordem mundial”,
acredita.Durão Barroso quis ainda saber a
opinião de António Costa sobre o peso das questões nacionais na política
europeia, ao que o primeiro-ministro português reconheceu que os
processos de decisão europeus estão “muito condicionados em função das
eleições nos Estados-membros”.