Europa ganhou relevância no mundo e Portugal tem um papel
Ucrânia/1 ano
24 de fev. de 2023, 09:33
— Henrique Botequilha /Lusa/AO Online
Em entrevista à Lusa a propósito do primeiro aniversário da invasão da
Rússia na Ucrânia, que hoje se assinala, João Gomes Cravinho disse que,
após a resposta dos aliados europeus de Kiev e dos Estados Unidos, “é
preciso um diálogo forte com outras partes do mundo” por todas as
razões.“Primeiro, porque temos hoje uma
relevância que não é igual àquela que havia no passado, uma relevância
muito superior e, segundo, porque o que se está a passar na Ucrânia tem a
ver com o resto do mundo, não tem só a ver com uma redefinição de
fronteiras no leste europeu, tem a ver com a tentativa russa de criar
uma nova ordem mundial, que seria (também para Portugal) extremamente
danosa”, afirmou.Comentando a evolução
geopolítica no último ano, João Gomes Cravinho apontou “elementos de
paradoxo”, sublinhando que a NATO “ganhou uma nova intensidade, e um
enorme espírito de união”.A União
Europeia, por sua vez, “revelou ser capaz de tomar decisões muitíssimo
mais ousadas do que alguém imaginaria há um ano e pouco atrás e,
portanto, de se afirmar internacionalmente como um polo de referência
num mundo multipolar”.Mas outro “elemento
de paradoxo” essencial, defendeu, é que a atenção, sobretudo da União
Europeia, se concentrou no apoio à Ucrânia e defesa do seu território
contra a Rússia, o que para o ministro é natural. Mas agora é preciso
transformar “esse papel de poder num quadro multipolar num palco mais
amplo, que é o palco mundial”. E Portugal
tem estado “muito empenhado” nesse alargamento de influência, levando a
mensagem juntos dos seus principais interlocutores, afirmou o chefe da
diplomacia portuguesa, que na quinta-feira esteve em Brasília na
preparação da Cimeira Luso-Brasileira, e esperando que o próximo
encontro entre a União Europeia e os países da América Latina e Caraíbas
seja um sucesso também a este nível, recordando ainda a recente
presença do primeiro-ministro português, António Costa, na Cimeira da
União Africana, em Adis Abeba, tal como do presidente do Conselho
Europeu, Charles Michel.Portugal “tem
estado muito bem neste processo”, prosseguiu o ministro, manifestando,
por um lado, “uma grande solidariedade, uma grande generosidade nos
vários planos de relacionamento com a Ucrânia”, no plano do apoio
político, militar, financeiro e do humanitário, mas tem demonstrado ser
um país capaz de fazer pontes com outras partes do mundo”, quando
algumas partes da Europa têm estado quase exclusivamente viradas para a
Ucrânia”.“O nosso apelo tem sido
consistentemente: ‘Não se esqueçam do relacionamento com América Latina,
não se esqueçam do relacionamento com África e com os países asiáticos e
temos desempenhado essa função”, assinalou, relevando igualmente a
proximidade de Lisboa com os países da Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa (CPLP). Esse relacionamento
lusófono tem conduzido a “um diálogo constante “num quadro em que o
grande tema mundial é a invasão da Ucrânia pela Rússia”, destacou,
acrescentando: “É evidente que temos vindo a falar sobre essa questão, a
comparar as nossas ideias e as nossas posições”.Apesar
de divergências de posições dentro deste espaço político, em relação à
invasão russa, atendendo a que são “países distintos, diferentes, com
trajetórias históricas também diferentes”, João Gomes Cravinho assinalou
que “há uma maioria de países que está muito próxima de Portugal nas
suas votações nas Nações Unidas”.Isso não
significa que Portugal tenha “homogeneidade na CPLP”, mas há um processo
de diálogo em curso. “Eu não quero aqui dizer que eles tomam decisões
com base naquilo que Portugal pensa, não é de todo o caso, eles tomam
decisões com base naquilo que é a sua análise da situação, mas nós
falamos com eles com assiduidade sobre esta realidade”, referiu.Voltando
ao espaço europeu, João Gomes Cravinho também abordou a perspetiva de
alargamento da União Europeia, com os pedidos de adesão recentes da
Ucrânia e da Geórgia, a que somaram a outros já existentes de países dos
Balcãs ocidentais.O alargamento,
defendeu, não deve ser feito à custa do afrouxamento dos critérios de
adesão: “A nossa convicção é de que não devemos defraudar as
expectativas. Enfraquece a União Europeia dizer ‘sim, senhor, vocês são
candidatos, vocês vão aderir’, mas depois não progredir nesse sentido".Por
outro lado, sendo favorável a “um diálogo honesto, sincero, aberto com
esses países, que fazem parte da nossa Europa, sem qualquer dúvida”, o
chefe da diplomacia portuguesa observou que um alargamento implicará
alterações em termos dos mecanismos, que “são lentos e pesados” e, ao
passar de 27 para 35 países, é preciso “olhar para o funcionamento das
instituições”.Por outro lado, apontou,
“não se pode ignorar que a escala da Ucrânia é completamente diferente”,
em comparação por exemplo com Montenegro, em que um país tem mais de 40
milhões de habitantes, além de ser um grande produtor agrícola, e outro
meio milhão.“Todas as características da
Ucrânia indicam que nós temos de olhar muito seriamente, não só para os
mecanismos de tomada de decisão, mas também para elementos fundamentais
do funcionamento da União Europeia”, insistiu Cravinho, indicando o caso
da Política Agrícola Comum “antes de poder abrir as portas” à Ucrânia:
“Se estamos disponíveis para ter a Ucrânia como país candidato, devemos
também estar disponíveis para refletir na nossa forma de pensamento,
porque uma coisa implica a outra”.