EUA estavam dispostos a apoiar independência dos Açores se comunismo vingasse no país

4 de jun. de 2022, 12:23 — Lusa /AO Online

O historiador e docente universitário Avelino Menezes refere que “à luz dos sentimentos proamericanos e anticomunistas da população açoriana, quando se alvitra em 1975 a instalação de um consulado soviético, os Estados Unidos esboçam um plano de intervenção no arquipélago para garantia do livre acesso à base das Lajes e assegurar o controlo do Atlântico e a entrada no Mediterrâneo”.A 06 de junho de 1975, uma manifestação reuniu cerca de 10 mil pessoas, predominantemente lavradores, que se batiam por diversas reivindicações e se juntaram contra o regime que vigorava em Lisboa. Este ano, o Dia da Região Autónoma dos Açores, que se comemora, na segunda-feira, também dia do Espírito Santo, coincide com a data da manifestação.A concentração acabou por ficar conotada com a defesa da independência dos Açores e com a FLA – Frente de Libertação dos Açores, cujo fundador e líder histórico, José de Almeida, faleceu a 01 de dezembro de 2014.Avelino Menezes, em declarações à Agência Lusa, aponta que é a CIA (Central Intelligence Agency) que “assume a dianteira na aproximação aos separatistas açorianos”.Mas ainda em 1975, em Lisboa, a “contenção dos radicais e a ascenção dos moderados motiva o recuo dos Estados Unidos, que optam pela neutralidade”, ressalva o historiador.“É o próprio presidente Gerald Ford que protagoniza a inversão de posições quando diz, por exemplo: «teríamos ficado contentes se a independência tivesse acontecido durante um governo comunista mas agora, com um governo melhor é necessário unidade»”, cita Avelino Menezes.O historiador frisa que, “com a redução do predomínio do Partido Comunista no continente, assistiu-se ao decréscimo da importância da FLA nos Açores”.Já para o docente universitário, estudioso da geopolítica e geoestratégia Luís Andrade, Washington “poderia ter essa visão”, mas “oficialmente nunca a manifestou”.Luís Andrade diz que, na altura, tanto o embaixador norte-americano em Lisboa, Frank Carlucci, como o Consulado dos Estados Unidos em Ponta Delgada “nunca admitiram" a perspetiva de uma independência dos Açores.O docente ressalva que, “se a situação se tivesse deteriorado e houvesse uma enorme imprevisibilidade e instabilidade” no Governo central, sobretudo no verão de 1975, era "muito possível" que os norte-americanos apoiassem a independência.Citando Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, que escreveu que Portugal estava perdido para o comunismo no denominado "verão quente", Luís Andrade refere que “não se pode dizer claramente que os Estados Unidos queriam ocupar as ilhas dos Açores se a situação se complicasse a nível nacional”, mas não se admira “absolutamente nada que se tenha pensado seriamente no assunto”.O docente universitário admite que “houve alguns contactos” do líder da FLA com “várias entidades americanas”, visando a independência dos Açores, mas “ao nível mais elevado da administração norte-americana" o responsável "nunca foi recebido”.Tendo a necessidade de salvaguardar a base das Lajes, na ilha Terceira, os norte-americanos "jogaram com os dois lados, com o governo português, mantendo uma relação mínima, não quebrando o relacionamento, por um lado, mas atentos à situação nos Açores, por outro”, disse Luís Andrade.De acordo com documentos secretos norte-americanos que foram entretanto divulgados publicamente, Washington - que deu indicações aos seus militares para defenderem a base das Lajes a tiro, se necessário - tinha vários cenários previstos para os Açores, o primeiro dos quais apontava por manter a sua neutralidade, não informando o governo português sobre as atividades separatistas e possível ataque, e dizendo à FLA que não se iriam envolver.