“Eu devia ter acreditado numa criança de dois anos e meio e não nelas”
Hoje 09:19
— Daniela Arruda
“Eu devia ter acreditado numa criança de dois anos e meio e não nelas, é
disso que eu me culpo”. Foi assim que uma mãe descreveu o que sentiu ao
perceber que o filho era uma das crianças retratadas nas imagens
captadas pelas câmaras de vigilância na creche da Casa do Povo de Rabo
de Peixe.A sala de audiências ficou em silêncio várias vezes ao
longo do terceiro dia de julgamento das quatro ex-auxiliares. Os
pais foram ouvidos na terça-feira, e, naquele espaço, as histórias de algumas crianças
ganharam voz. Um dos pais falou que começou com pequenas marcas no
corpo do filho: um arranhão perto da orelha, depois nódoas negras nas
pernas, uma ferida no nariz e negro por baixo dos olhos. As explicações
eram sempre as mesmas, “são rapazes, brincam na rua”, “bateu num armário
ou “ia caindo e agarrei-o”, e o pai ia acreditando. As situações
começaram quando o filho passou para a sala de transição, com idade
entre um e três anos.Além das marcas, o menino deixou de querer ir
para a creche, chorava ainda antes de chegar. Dizia que não queria
dormir, que não queria “mimi”, e chegava quase sempre a casa com a roupa
urinada dentro de um saco: “Era só na creche, em casa não fazia xixi
nas calças”, garantiu o pai.Também começou a tapar os ouvidos e a
repetir “susto, susto”, sempre que ouvia barulhos mais fortes. Um dia, o
pai mostrou-lhe fotografias das auxiliares no telemóvel e quando
apareceu a imagem de uma delas, a criança levou a mão à cara e disse:
“pau pau”.Em casa o comportamento também mudou, a mãe falou de
comportamentos mais agressivos, gritos, pontapés: “Pensávamos que eram
birras”, disse. Mas, mais tarde, perceberam que não.Outro casal
relatou que o filho aparecia com feridas no céu da boca e na língua, o
que levou a várias idas ao hospital. Na hora do banho, não deixava que a
água do chuveiro lhe tocasse na cabeça, só aceitava a esponja, pois
gritava de dores: “Ele estava cheio de galos”, disse o pai, sem nunca
imaginar o que estaria por trás. A criança passou também a ter medo
de barulhos fortes, imitava castigos, pondo as bonecas da irmã de
castigo, e reproduzia frases que ouvia na creche. Quando estava numa
fila de carros, dizia: “anda mosquito, anda cismado”.A mãe afirmou que
“elas brincavam com o psicológico das crianças e dos pais”, pois ao
mesmo tempo em que a violência acontecia, a auxiliar mostrava-se
carinhosa quando entregava o filho no final do dia: “Daquelas portas
para cá, elas são anjos”. Com o tempo, começaram as queixas vindas
da creche. Diziam que o menino estava difícil nas refeições, que
vomitava. “No princípio ele comia muito bem, mas depois parecia que
qualquer coisa o fazia vomitar. Ganhou facilidade em pôr comida fora”,
contou a mãe, acrescentando que o filho repetia várias vezes: “colher na
garganta”.Outro pai falou da filha, uma criança com autismo, que
deixou de sorrir, de querer ir para a creche e começou a colocar os
dedos na boca até ao fundo como quem provoca o vómito: “A nossa menina
não fala, mas compreende”, disse, sem conseguir encontrar uma explicação
para os comportamentos violentos que aconteciam na creche. E conta
ainda que hoje a criança foge da massa tricolor.Antes dos pais, o
tribunal ouviu também trabalhadoras da instituição. Uma funcionária da
cozinha afirmou que lavou babetes sujos de sangue e associou isso à
forma como a comida era dada à boca com talheres de metal, cabos de
colher, garfos e até dedos enfiado na boca das crianças. Outras
testemunhas relataram situações em que a comida vomitada era novamente
levada à boca, inclusive relataram episódios em que a colher além de
vómito tinha também ranho.Durante as refeições disseram que não era
dada água às crianças para evitar idas à casa de banho e quando pediam,
muitas vezes não era dada autorizada, o que resultava em roupa urinada. Ao
longo da sessão, houve palavras que se repetiram vezes sem conta: medo,
culpa e silêncio. O medo terá sido, segundo várias testemunhas, o maior
aliado das quatro arguidas e o maior obstáculo para que tudo fosse
denunciado mais cedo.O julgamento prossegue no próximo dia 15 de abril.