Estudo revela que mais de um milhão de votos foram "desperdiçados"
Legislativas
29 de mai. de 2025, 17:18
— Lusa/AO Online
A análise, intitulada “Votos sem
representatividade”, elaborada por Henrique Oliveira do Departamento de
Matemática do Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa,
contabilizou 1.146.034 votos sem representatividade no país, somando os
restos de todos os círculos eleitorais analisados, excluindo votos
brancos e nulos.De acordo com este
trabalho académico, o eleitor médio do interior de Portugal tem “apenas
65% de representatividade face a valores acima dos 85% nos grandes
círculos”, sendo o círculo da Europa o que apresenta a taxa de
representatividade mais baixa de todo o sistema eleitoral, 43%.O
estudo dividiu o total de “votos desperdiçados” em duas categorias: do
tipo A, votos que não contribuíram para a eleição de qualquer deputado
num determinado círculo; e os votos de tipo B, ou seja, a proporção de
votos de partidos que conseguiram eleger pelo menos um deputado, mas que
ficaram por converter em mandatos adicionais após a aplicação do método
de D’Hondt.Os “círculos recordistas” da
percentagem de votos sem representatividade são os da Europa (56.7%),
Portalegre (42.5%) e Fora da Europa (41.2%).“Em
geral, os círculos do interior têm percentagens mais elevadas de votos
desperdiçados. A Madeira deixou de ter elevados restos face à votação de
2024 (39.1%) devido à força local Juntos Pelo Povo (JPP) ter elegido um
deputado nesse círculo”, é detalhado.Analisando
os “votos desperdiçados” que não contribuíram para a eleição de
qualquer deputado, do tipo A, os círculos com maior percentagem deste
tipo mantêm-se Portalegre (40,6%), Fora da Europa (39,4%) e Europa
(36,6%).Em contraste, Lisboa, Porto e
Setúbal, círculos com maior número de deputados eleitos, surgem como os
distritos com menor desperdício: 2,6%, 6,4% e 7,2%, respetivamente.Quanto
aos votos desperdiçados do tipo B, que, embora tenham contribuído para a
eleição de deputados, não chegaram a ser suficientes para garantir mais
um mandato, os círculos com percentagens mais elevadas são Guarda
(24,4%), Açores (23,0%), Castelo Branco (20,2%), Europa (20,0%) e Viana
do Castelo (18,8%).O estudo salienta que,
nestes casos, mesmo quando os partidos têm representação parlamentar,
“uma fatia significativa dos seus votos não se traduz em mandatos
adicionais”.“Este tipo de análise revela
que o sistema eleitoral atual não apenas penaliza os partidos pequenos e
os eleitores em círculos reduzidos através de votos totalmente
desperdiçados, mas também impede que os votos em partidos com
representação sejam aproveitados de forma plena”, lê-se no estudo, que
aponta a necessidade de equacionar soluções como um círculo nacional de
compensação, agregação de círculos ou “mecanismos adicionais de
redistribuição de votos sobrantes”.A
análise adianta ainda que todas as forças políticas verificam “um
elevado” número de votos desperdiçados. No caso do PS, o desperdício de
votos explica o facto de ter agregado mais boletins mas ter ficado com
menos deputados (58) do que o Chega (60), partido que “teve melhor
coeficiente de vantagem na transformação dos votos em mandatos”.O
mais eficiente a converter votos em mandatos foi a AD - coligação
PSD/CDS-PP, com restos de apenas 4,5% da sua votação e uma taxa de
conversão de 95,5% dos votos, seguindo-se o Chega com 89,3%, e o PS que
desce para 85,6%.No outro extremo, o BE –
que desceu de cinco para uma deputada - apenas conseguiu converter 18,6%
de todos os seus votos em mandatos.O
estudo conclui que “a proporcionalidade do sistema eleitoral português
não é uniforme em todo o território” e alerta que esta “desigualdade
intrínseca pode comprometer a legitimidade do sistema, sobretudo quando
se torna sistemática e que se tem repetido em eleições legislativas
sucessivas”.