Estudo revela novos dados sobre crise sismovulcânica de São Jorge em 2022

Hoje 10:20 — Filipe Torres

Um estudo científico recente sobre a crise sismovulcânica de 2022 na ilha de São Jorge, nos Açores, trouxe novos avanços na compreensão dos mecanismos que controlam a ascensão do magma e a deformação da crosta terrestre. A investigação foi conduzida por João D’Araújo, João Luís Gaspar e Teresa Ferreira, do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos (IVAR) da Universidade dos Açores, juntamente com investigadores internacionais.Segundo o IVAR, com base em dados geodésicos (GNSS) e imagens de radar por satélite (InSAR), foi possível analisar com maior detalhe o comportamento do magma em profundidade.De acordo com o estudo, publicado na revista Geophysical Research Letters, a crise teve início a 19 de março de 2022, com uma intrusão magmática súbita. O magma ascendeu rapidamente desde vários quilómetros de profundidade até cerca de 2 a 3 km abaixo da superfície em poucas horas, sem sinais precursores evidentes, o que evidencia a dificuldade de prever este tipo de fenómeno.A intrusão ocorreu sob a forma de um dique vertical (fratura na crosta preenchida por magma), que se propagou lateralmente e em profundidade ao longo de mais de 10 km em menos de 24 horas. A atividade sísmica acompanhou esse processo, deslocando-se ao longo da ilha à medida que o magma avançava.Os dados mostram que a deformação da crosta não se limitou a São Jorge, afetando também ilhas vizinhas. O modelo desenvolvido aponta para uma intrusão com cerca de 16 km de extensão, situada entre 3 e 13 km de profundidade, iniciando-se na parte central da ilha e evoluindo para oeste, em direção à zona das Velas.A propagação do magma foi parcialmente guiada por falhas geológicas. A análise indica a existência de uma tensão extensional sob a ilha, resultante da combinação entre a carga do relevo (peso da ilha) e a abertura tectónica. Numa fase inicial, a carga topográfica facilitou a subida rápida do magma a pequenas profundidades. No entanto, as tensões compressivas associadas ao regime tectónico terão dificultado a sua progressão até à superfície, impedindo a ocorrência de uma erupção.O IVAR realça que o estudo, baseado por modelos físicos e numéricos, e os resultados mostraram que a interação entre o relevo acentuado da ilha e o movimento lento das placas tectónicas ao longo de milhares de anos cria condições favoráveis à ascensão de magma sob a ilha.60 anos sem atividade vulcânica terão permitido acumulação de magma em São JorgeOs investigadores consideram que as seis décadas de relativa inatividade vulcânica terão permitido a acumulação de magma sob São Jorge. Além disso, a ocorrência de sismicidade profunda meses antes da crise pode indicar episódios de alimentação magmática a partir de maiores profundidades, contribuindo para o aumento de tensão e rutura da crosta.O estudo conclui que a interação entre carga topográfica, tectónica e propriedades da litosfera controla a propagação de diques magmáticos. Os investigadores consideram que estes resultados reforçam a importância da monitorização contínua da deformação da crosta e da atividade sísmica nos Açores. Para além disso, explicam que os mecanismos identificados podem ser amplamente aplicáveis a outras regiões vulcânicas extensionais com relevo topográfico significativo.“Esta publicação científica, mais uma vez, reforça a importância da monitorização da deformação crustal no arquipélago dos Açores, e ao combinar observações geodésicas detalhadas com modelação numérica avançada, o trabalho representa um passo significativo para a compreensão de crises vulcânicas na região”, conclui o IVAR.