Estudo recomenda menos burocracia e mais magistrados para combater 'burnout' no MP
6 de set. de 2024, 15:12
— Lusa/AO Online
As
conclusões e recomendações do “estudo sobre condições de trabalho,
desgaste profissional e bem-estar dos/as magistrados/as do Ministério
Público portugueses/as”, coordenado pelos investigadores Paula Casaleiro
e João Paulo Dias, do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade
de Coimbra.Os
resultados preliminares já haviam sido apresentados no congresso do
Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) nos Açores, no
início deste ano, sendo que às conclusões que apontam para níveis
elevados de ‘burnout’ (desgaste profissional) e para elevados riscos
para a saúde dos magistrados, se juntam recomendações para contrariar
esse quadro.A análise das respostas mostra
que 32,7% dos magistrados revelaram um nível de risco “médio-alto” de
'burnout' e 14,8% risco “elevado” (perto de 225 magistrados do MP). Os
magistrados revelaram também fatores de risco psicossociais com
“preocupantes riscos para a saúde”, devido às fortes exigências
cognitivas (80,6%), ao elevado ritmo de trabalho (80,2%), ao conflito
entre trabalho e família (78,7%) e às exigências emocionais (71,3%). Em
termos de indicadores de saúde, esta magistratura revelou valores
“muito preocupantes” no nível de stresse (47,8%), destacando-se entre as
causas o elevado volume processual (70,4%), a falta de apoio à
conciliação entre trabalho e família (64,3%), o impacto das inspeções
judiciais ao desempenho profissional (60,7%), a participação nos
concursos para movimentos (57,2%) e a falta de oficiais de justiça
(55,8%).Perante os números, o estudo
recomenda a “elaboração e implementação de um Plano de Segurança e Saúde
no Trabalho (alargamento da medicina do trabalho)” e a “criação de um
Gabinete de Saúde Ocupacional sistema de prevenção, deteção e
intervenção”.Sugere-se ainda a criação de um plano para melhorar a conciliação entre a vida familiar e profissional.Em
termos de organização e distribuição de trabalho, o estudo recomenda um
“mapeamento de necessidades” e um reforço de quadros do MP, assim como
dos oficiais de justiça, e uma avaliação da distribuição de recursos
humanos pelos tribunais e serviços, “procurando otimização de recursos e
melhor adequação ao volume de trabalho”.Propõe-se
uma redução, automatização e simplificação dos atos administrativos e
burocráticos e uma melhoria dos instrumentos de gestão processual,
avaliando critérios para acumulação e impactos remuneratórios.É
ainda sugerida formação inicial e contínua sobre riscos profissionais,
gestão de trabalho, stress e ‘burnout’, uma revisão dos procedimentos de
inspeção do MP, nomeadamente relativos a baixas médicas.Para
combater o quadro de risco de ‘burnout’, o estudo, que resulta de um
acordo de colaboração entre o CES, no âmbito do Observatório Permanente
da Justiça, e a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Sindicato dos
Magistrados do Ministério Público (SMMP), propõe ainda a “autonomia
administrativa e financeira da PGR, dotada dos meios necessários, para
poder definir, criar e implementar as medidas necessárias para a gestão
de recursos humanos e melhoria das condições de trabalho (maiores
competências, maior responsabilização)”.O
inquérito decorreu em junho e julho de 2023 por questionário ‘online’, a
1.512 magistrados em exercício de funções nos tribunais, e teve uma
taxa de resposta de 21,4%.Em média, os
inquiridos têm 46,4 anos de idade e 14,6 anos de serviço, cerca de 30%
está atualmente deslocado da residência para exercer funções e 27,3%
acumula funções noutro tribunal, juízo ou serviço para além do local de
colocação.