Estudo mostra que diminuição de uma proteína desencadeia doença semelhante ao Alzheimer
23 de jun. de 2020, 16:43
— Lusa/AO online
Em
comunicado, o instituto da Universidade do Porto avança hoje que o
estudo, publicado na revista Cell Reports, mostrou que a “diminuição de
uma proteína presente em células da microglia [principais células imunes
do sistema nervoso central que fazem a vigilância ativa do cérebro] é
suficiente para desencadear uma doença neurológica semelhante à doença
de Alzheimer”.O estudo reforça assim a
ideia de que a disfunção microglial pode desempenhar um “papel central”
no desencadear ou na progressão da doença neurológica, assegura o i3S,
acrescentando que o trabalho agora publicado se distancia da visão “mais
clássica” de que as patologias do sistema nervoso central estão “quase
unicamente” associadas à disfunção neuronal primária.Segundo
o i3S, a equipa de investigadores, liderada por João Bettencourt
Relvas, diminuiu uma proteína – a RhoA - das células de microglia adulta
e concluiu que a sua “perda” é suficiente para “iniciar espontaneamente
a ativação imune da microglia e para provocar a neuroinflamação”.“A
ativação prolongada da microglia pode desencadear ou acelerar danos
neuronais, num contexto de doença neurológica, ou atrasar a recuperação
do sistema nervoso após lesão, ou seja, esse aumento continuado no tempo
torna-se tóxico, causando disfunção neuronal”, lê-se na nota.Citado
no comunicado, Renato Socodato, primeiro autor do artigo, sublinha que a
“perda desta proteína pode desencadear um quadro de doença
neurodegenerativa bastante semelhante ao que se observa na doença de
Alzheimer, incluindo a formação e deposição de espécies tóxicas de
origem amiloide, perdas sinápticas e neuronais, e de memória”.Já
João Bettencourt Relvas explica que os investigadores conseguiram
“induzir doença neurológica mexendo unicamente na microglia”, tendo
percebido, quando compararam com um ratinho com Alzheimer, que numa fase
inicial da doença “já se verifica a redução da atividade da proteína
RhoA”.“Já testamos quatro outras proteínas
parecidas da mesma família, mas nenhuma delas, quando diminuída provoca
doença de Alzheimer”, refere o investigador português, acrescentando
que o objetivo da equipa passa agora por tentar perceber “porque é que
só a perda de RhoA” resulta no desenvolvimento de uma doença neurológica
semelhante ao Alzheimer.“Vamos também
manipular a expressão desta proteína na microglia de modelos
pré-clínicos de Alzheimer para tentar prevenir a progressão da doença”,
avança o investigador.Para confirmar que a
função desta proteína e proteínas associadas está “efetivamente
comprometida na microglia do cérebro do doente com Alzheimer”, os
investigadores vão usar material humano do Banco Português de Cérebros,
no Cento Hospitalar Universitário do Porto (Santo António).Aprofundar
o conhecimento sobre a relação entre a “regulação da imunidade inata
pela proteína RhoA” e o início da doença de Alzheimer poderá permitir
novas abordagens terapêuticas para prevenir ou limitar o processo
neurodegenerativo inerente ao Alzheimer, assegura o i3S.