Estudo deteta nos Açores lixo marinho com décadas dos EUA e do Canadá
Hoje 11:40
— Lusa/AO Online
“Os materiais
associados à pesca, especialmente aqueles que possuem marcas ou códigos
de identificação, constituem uma oportunidade única para estabelecer uma
ligação entre os resíduos encontrados e as regiões e atividades que
lhes deram origem”, explica o investigador principal do estudo,
Christopher Pham, citado em comunicado.O líder do grupo do lixo marinho do Okeanos, que tem sede na ilha do Faial, faz investigação nesta área há mais de uma década.Neste
novo estudo, agora publicado na revista científica Springer Nature,
foram registados 1.577 itens de lixo marinho, recolhidos nas zonas
costeiras das ilhas do Faial e do Pico.Estes
itens eram constituídos sobretudo por plásticos de armadilhas
utilizadas na pesca da lagosta, como dispositivos de escape e etiquetas
de identificação dos aparelhos de pesca.A
informação gravada em algumas das etiquetas de identificação, permitiu
aos investigadores “determinar a origem dos resíduos com um nível de
detalhe que raramente é possível em estudos de lixo marinho”.“Estas
etiquetas mostraram que 63% eram provenientes dos Estados Unidos, sendo
que 76% destas tinham origem no estado do Maine. As restantes eram
provenientes do Canadá”, adiantaram os investigadores, em comunicado.Além
de comprovar que “a poluição por plástico, transportada por correntes
oceânicas, atravessa fronteiras”, o estudo confirmou também que esse
lixo marinho “pode permanecer no oceano durante décadas”, tendo sido
encontradas etiquetas com datas entre 1983 e 2023.“Os
resultados deste estudo fornecem evidências claras da natureza
transfronteiriça da poluição por plástico no Atlântico Norte: materiais
associados às pescas nos Estados Unidos e no Canadá acabam por chegar
aos Açores, a milhares de quilómetros das suas regiões de origem. Esta
realidade representa um desafio particularmente importante para regiões
insulares, que têm de lidar com resíduos marinhos gerados muito para
além da sua jurisdição e sobre os quais as autoridades locais têm pouca
ou nenhuma capacidade de intervenção na origem”, salienta a
investigadora do Okeanos e coautora do estudo Yasmina Rodríguez.Os
investigadores defendem que “os resultados reforçam a necessidade de
uma maior cooperação entre países e continentes para prevenir a entrada e
a permanência de materiais de pesca de plástico no ambiente marinho”.Nesse
sentido, propõem “a melhoria dos sistemas de marcação e reporte das
artes de pesca, a adoção de medidas preventivas destinadas a reduzir as
perdas de plástico associadas à pesca da lagosta tanto nos Estados
Unidos como no Canadá e o desenvolvimento de políticas coordenadas entre
países e regiões”.O lixo marinho que
serviu de base a esta investigação foi recolhido por antigos vigilantes
da natureza do Parque Natural do Faial e por uma campanha de ciência
cidadã liderada pelo Okeanos, que envolveu comunidades locais das ilhas
do Faial e do Pico.