Estudo de dentes fósseis revela hábitos de populações que ocuparam Portugal há cem mil anos
8 de mai. de 2023, 18:17
— Lusa
As conclusões divulgadas pelo Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa
(UNIARQ) provêm da análise da composição química do esmalte de dentes
fósseis provenientes das escavações junto à nascente do rio Almonda, na
região de Terras Novas, e permitem perceber o território percorrido
pelos seus detentores.O estudo revela
assim “conclusões precisas sobre o modo de vida, a territorialidade e a
subsistência das populações que habitaram o território português durante
a última glaciação, entre há cerca de 100 000 e há cerca de 10 000
anos”.Desenvolvido no sistema de jazidas
arqueológicas associado à nascente do rio Almonda, perto de Torres
Novas, no distrito de Santarém, por investigadores do Centro de
Arqueologia da Universidade de Lisboa, e das universidades de Trento
(Itália) e Southampton (Reino Unido), o estudo foi publicado na The
Proceedings of the National Academy of Sciences, revista oficial da
Academia das Ciências dos Estados Unidos.“O
estudo representa um marco de grande importância para a Arqueologia,
demonstrando como, mesmo para épocas muito remotas, existem hoje
técnicas científicas que permitem abordar a vida das pessoas à escala do
indivíduo, não apenas à da população”, realça o UNIARQ.Os
investigadores analisaram a composição química do esmalte dos dentes
fósseis de humanos e de animais provenientes das escavações na nascente
do rio Almonda, que vêm sendo realizadas desde 1988, afirma o UNIARQ.Segundo
o comunicado, “nas rochas, os isótopos do estrôncio mudam gradualmente
ao longo de milhões de anos devido a processos radioativos. Por isso, o
teor em estrôncio dos solos varia de lugar para lugar em função da
antiguidade do substrato geológico. Essa ‘impressão digital’ isotópica
passa dos solos para as plantas que neles crescem e através delas para a
cadeia alimentar, acabando por ficar registada no esmalte dos dentes”.A
“comparação com o teor em estrôncio dos dentes permite reconstituir o
território percorrido pelo indivíduo, humano ou animal, durante o
período de formação do esmalte, que, para os dentes humanos analisados,
dois pré-molares e um molar, é entre os cinco e os quinze anos”.Os
arqueólogos usaram uma técnica que recorreu à amostragem por laser,
“que permite colher e medir amostras ao longo de milhares de pontos
selecionados segundo o eixo de crescimento da coroa do dente”.No
tocante aos fósseis humanos, as amostras foram obtidas a partir de dois
dentes de neandertais do Paleolítico Médio, com cerca de 95.000 anos,
encontrados na Gruta da Oliveira, e um do final do Paleolítico Superior,
com cerca de 13.000 anos, encontrado na Galeria da Cisterna.“Utilizando
a mesma técnica, analisaram-se os isótopos do estrôncio no esmalte
dentário de restos de rinoceronte, cavalo, veado e cabra-montesa
procedentes das duas jazidas e ainda de outra pertencente ao mesmo
sistema, a Lapa dos Coelhos”.Quanto aos
restos de caça, “mediram-se também os teores em isótopos de oxigénio, os
quais variam sazonalmente, do verão para o inverno”. Assim, segundo a
mesma fonte, foi possível determinar onde os animais andaram, e
estabelecer em que época do ano frequentaram os diferentes territórios
de pastagem.“Os resultados obtidos mostram
que, no caso dos neandertais de há cerca de 95.000 anos, a
cabra-montesa era caçada no verão, ao passo que o cavalo, o veado e o
rinoceronte estavam presentes num raio de 30 quilómetros ao redor onde
puderam ser caçados ao longo de todo o ano”.No
caso do indivíduo do final do Paleolítico Superior, com cerca de 13.000
anos, “a subsistência era obtida numa área mais restrita — os cerca de
20 quilómetros da margem direita do rio Almonda, entre a nascente e a
confluência com o Tejo — e o lugar de residência alternava sazonalmente
entre estes dois pontos extremos do território”. A
caça principal era o veado, mas também a cabra-montesa, em quantidade
importante. Apanhavam-se ainda pequenas presas como o coelho e peixes de
água doce, como o sável.Nesta época, a
tartaruga-terrestre, muito consumida pelos neandertais, já se encontrava
extinta nas regiões portuguesas, pelo que não aparece no 'menu', refere
o comunicado.“É provável que a diferença
no tamanho do território entre os neandertais do Paleolítico Médio e os
magdalenenses do final do Paleolítico Superior esteja relacionada com a
demografia. Com uma densidade populacional mais baixa, os neandertais
podiam dispor de territórios mais vastos. No Magdalenense, o aumento da
densidade populacional obrigou os grupos humanos a extrair a sua
subsistência no interior de territórios mais pequenos, e daí o facto de
passarem a ter sido explorados de forma mais intensiva as pequenas
presas e o peixe de rio”, explica João Zilhão, coautor do artigo, citado
pelo UNIARQ.