Estudo da Universidade dos Açores admite dificuldade no combate à alga invasora

Hoje 16:50 — Lusa/AO Online

“Provavelmente, esta alga não irá desaparecer dos mares dos Açores nos próximos tempos, porque a biologia e a ecologia desta alga é bastante violenta, e está a afetar todo o equilíbrio dos ecossistemas costeiros”, admitiu Filipe Porteiro, investigador da UAç e coordenador do estudo, em declarações aos jornalistas, na apresentação das conclusões do estudo, numa sessão pública na cidade da Horta.A alga invasora, ou alga asiática (como também é conhecida), foi descoberta em 2019, junto ao porto de Ponta Delgada, a maior cidade do arquipélago, provavelmente arrastada pelos cascos dos navios que atravessam o Atlântico, ou pelos tanques de lastro dos navios mercantes.A espécie, que pode desenvolver-se nos fundos marinhos, até 40 metros de profundidade, acabou por se espalhar, passados sete anos, por quase todas as ilhas dos Açores, à exceção do Corvo (a mais pequena), onde ainda não há registos da sua presença, embora os investigadores entendam que será apenas uma questão de tempo, até lá chegar.“É tentar arranjar medidas para minimizar o impacto nas zonas costeiras mais afetadas, e nas zonas balneares, como, por exemplo, no porto da Madalena [Pico], na Praia de Porto Pim [Faial], ou em várias zonas da ilha de São Miguel”, realçou Filipe Porteiro, adiantando que é necessário um investimento avultado na sua monitorização, limpeza e armazenamento.Os cientistas confirmam que a alga reproduz-se muito rapidamente e está a provocar impactos negativos na biodiversidade marinha, além do mau cheiro, quando a espécie arroja nas praias ou nas zonas balneares (sobretudo na primavera e início do verão), e entra em decomposição, afastando moradores e turistas.O secretário regional do Mar e das Pescas, Mário Rui Pinho, reconhece que este “é um problema complexo” para os Açores, mas diz que é preciso agora “trabalhar” numa solução conjunta que permita o aproveitamento desta biomassa em futuros projetos com fins comerciais.Também Alonso Miguel, secretário regional do Ambiente e Ação Climática, realçou os custos elevados das operações de limpeza, transporte e armazenamento das algas que têm dado à costa no arquipélago, quer por parte dos serviços de ambiente, quer das autarquias das zonas mais afetadas.A alga invasora não é, no entanto, um problema exclusivo dos Açores. Esta espécie está também presente nos arquipélagos da Madeira e das Canárias, no continente português e em vários países banhados pelo Mediterrâneo, de onde se presume tenha tido origem.O coordenador do estudo da UAç diz que há vários projetos internacionais que apontam para a possibilidade desta alga poder ser utilizada como “fertilizante ou herbicida” na agroindústria, mas lembrou que esses estudos não passaram ainda das experiências laboratoriais.“Há projetos de investigação aplicados, em que tentam determinar a relevância desta alga, por exemplo, como fertilizantes, como rações, ou como herbicidas, ou até como biogás, mas não há ainda nenhuma iniciativa que tenha chegado a uma escala industrial, isto nas áreas mais afetadas, como a costa sul de Espanha ou de Portugal”, adiantou Filipe Porteiro.Para já, o investigador deixa uma recomendação: que a alga invasora continue a ser estudada e monitorizada pela Universidade dos Açores nos próximos anos.Segundo o Governo dos Açores, a presença desta alga em grande escala no arquipélago representa a bio-invasão marinha “mais agressiva” de que há registo nas ilhas, com “impactos severos” na degradação dos ecossistemas costeiros, afetando diretamente setores vitais da economia açoriana, como o turismo, o lazer e a pesca.