Estudo da ONU revela que quem cruza o Mediterrâneo voltaria a fazê-lo
21 de out. de 2019, 17:28
— Lusa/AO online
Apenas
2% das quase 2.000 pessoas entrevistadas disse que teria permanecido no
seu país de origem ao conhecer os riscos que enfrentava.Isso,
apesar de 93% dos entrevistados reconhecerem estar em perigo durante a
sua viagem, de acordo com os dados recolhidos pelo Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Com o
objetivo de entender melhor as motivações dos africanos que decidem
emigrar para a Europa de forma irregular, a agência da ONU recolheu
depoimentos de 1.970 pessoas de 39 países africanos que atualmente
residem em 13 países europeus e que não procuram asilo ou proteção, mas
que migraram por outros motivos.Para o
administrador do PNUD, Achim Steiner, o estudo mostra que a migração é
uma consequência do ritmo de desenvolvimento na África, que, apesar dos
progressos, permanece desigual e não é rápido o suficiente para
responder às aspirações de muitas pessoas.Assim,
o relatório conclui que a maior parte das pessoas que emigra da África
para a Europa não é pobre no contexto africano e possui níveis de
educação acima da média, com a maioria a trabalhar ou a estudar no
momento da sua partida. Quase dois terços
dos entrevistados indicaram que se sentia tratado de forma injusta pelo
seu Governo e muitos assinalaram a etnia ou ideias políticas como o
motivo.Uma grande maioria, 77%, disse
achar que a sua voz não seria ouvida no seu país ou que o sistema
político não permitia influenciar de forma alguma no Governo.Assim, 41% dos inquiridos mencionaram que "nada" teria mudado a sua decisão de emigrar.Para a maioria, o objetivo não é estabelecer-se no país de destino, mas regressar posteriormente a casa.A
vergonha de não poder enviar fundos para os seus familiares é um fator
chave para quem decide não retornar, uma vez que 53% dos entrevistados
realçaram que receberam algum tipo de apoio financeiro para pagar a sua
viagem.Quando estão na Europa, 78% envia
dinheiro para as suas famílias, em média um terço do que ganha
mensalmente, o que representa 85% do que recebia no seu país de origem.As
mulheres, de acordo com o estudo do PNUD, ganham, em média, mais que os
homens e enviam mais dinheiro para as suas casas, uma situação que
contrasta com a que têm na África, onde o seu rendimento é
significativamente menor que o dos homens.O
relatório alerta que a migração está a deixar o continente africano sem
muitas pessoas com mais aspirações, precisamente aquelas que
beneficiaram dos progressos de desenvolvimento das últimas décadas.Nesse
sentido, o estudo adverte que, embora a imigração tenha sido reduzida
recentemente, é provável que, à medida que a África continue a avançar,
haja cada vez mais pessoas que queiram emigrar.Os
especialistas do PNUD fazem uma série de recomendações, incluindo a
expansão de oportunidades na África, dando mais poder aos jovens para
decidirem o caminho dos países ou criarem economias mais inclusivas.Além
disso, aconselham o aumento dos canais legais de migração, facilitando
uma migração "circular" que permite que os africanos trabalhem do outro
lado do Mediterrâneo, ganhem dinheiro e depois retornem aos seus países
de origem e também regularizem as pessoas que já estão na Europa.