Estudo constata profunda desigualdade de género no acesso a chefias na imprensa
6 de dez. de 2023, 16:27
— Lusa
“Apesar de as mulheres
estarem em maior presença no ensino superior e nos cursos de
comunicação, e de existir uma maioria feminina nas redações, o que se
verifica é que existe uma profunda desigualdade de género no que diz
respeito ao acesso de chefias, chefes de redação, administração e
direção”, constatou a autora do estudo, a professora e jornalista
Liliana Carona.A investigação sobre o
papel das mulheres na imprensa regional foi tese de doutoramento em
Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra, apresentada em
novembro.O trabalho intitulado “A
feminização do jornalismo regional em contexto português: o caso dos
jornais centenários” debruçou-se na análise aos 40 jornais regionais
centenários, aplicou um inquérito aos profissionais da imprensa regional
e realizou entrevistas em cinco jornais centenários.A conclusão que Liliana Carona destacou “é transversal” aos três estudos incluídos na investigação.“Mais
do que ter uma perceção de que há desigualdade de género, esta
investigação confirma que existe desigualdade de género com algumas
consequências sobretudo com aquilo que são as ambições profissionais da
mulher”, realçou a investigadora, à agência Lusa.A
autora assinalou que “as mulheres continuam a denunciar diversos
obstáculos no que diz respeito à ascensão da carreira profissional”.E
relatou que “quando há uma abordagem ao tema da desigualdade de género
ou é negada ou, do ponto de vista das mulheres, é um dado adquirido e
não há nada a fazer”.Na análise aos 40
jornais regionais centenários existentes em Portugal, localizados
maioritariamente no norte do país, a investigação também constatou uma
desigualdade de género. Apenas seis publicações (15%) têm mulheres como
diretoras.Nos jornais centenários, as
redações são compostas maioritariamente por homens, mas o inquérito
nacional provou que existem mais mulheres do que homens na imprensa
regional.Liliana Carona evidenciou ainda
que nos inquéritos aos profissionais da imprensa regional “cerca de
metade da amostra [216 inquéritos respondidos] é a favor da inclusão de
uma alínea dedicada exclusivamente à necessidade de uma visão sobre a
igualdade de género no Código Deontológico dos Jornalistas”. Os
dados da investigação demonstram ainda que as mulheres são as que são
mais afetadas pela precariedade: “Os números indicam que 24,2% das
mulheres afirma ter contrato temporário de trabalho, face a 17% dos
homens”.No trabalho da professora e
jornalista também se constatou que as redações da imprensa regional
continuam a pautar-se por um trabalho polivalente, “o que traz até
consequências para aquilo que determina o código e a ética dos
jornalistas”.“Verifica-se a presença de
profissionais que desempenham tudo e mais alguma coisa. Acumulam-se
funções de jornalismo e de publicidade. Há redações onde isso se
verifica”, apontou Liliana Carona.A autora
considerou que seria útil a definição de um título de imprensa regional
e a inclusão de uma alínea específica no Código Deontológico sobre
igualdade de género. E também a implementação de planos para a igualdade
de género adaptados ao contexto dos média.Na
sua opinião, deveria apostar-se na clarificação das normas de acesso à
profissão. “Porque não a criação de uma ordem que venha regulamentar a
entrada na profissão?”, questionou.Liliana
Carona referiu que “a ideia que passa é de uma profunda desvalorização
da profissão e do seu acesso” e “quase qualquer pessoa pode ser
jornalista desde que comprove que escreve para um jornal”.