Estudo avaliou reações do cérebro de bombeiros em situações críticas de incêndios
13 de jun. de 2024, 11:25
— Lusa/AO Online
O
trabalho, liderado pela investigadora Isabel Duarte e por Miguel
Castelo-Branco, coordenador científico do Centro de Imagem Biomédica e
Investigação Translacional do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à
Saúde (CIBIT/ICNAS), implicou a realização de jogos virtuais de
salvamento, por parte de 47 bombeiros de várias corporações do distrito
de Coimbra.A equipa de investigação
concluiu que a visualização de imagens implicando decisões de resgate de
pessoas em incêndios pode “ter grande importância para melhorar e
treinar a tomada de decisão em situações de risco”, referiu a UC, em
comunicado enviado à agência Lusa.“Ao
analisar de que forma o cérebro resolve dilemas que envolvem decisões
que podem salvar vidas, foi possível estudar o papel da experiência e o
uso de estratégias de ‘coping’ [conjunto de estratégias cognitivas e
comportamentais usadas pelas pessoas para enfrentar situações de stress,
perante condições de elevada sobrecarga emocional para o indivíduo],
por parte de bombeiros”, explicou, citado na nota, o neurocientista
Miguel Castelo-Branco.O também docente da
Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) adiantou que a
investigação permitiu perceber que os dilemas de decisão levaram à
ativação de redes neuronais envolvidas na gestão da recompensa emocional
e outras redes relacionadas com dilemas éticos e deontológicos.A
equipa científica, onde se incluiu, igualmente, o Centro de Prevenção e
Tratamento do Trauma Psicológico do Centro de Responsabilidade
Integrada de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde de Coimbra, conseguiu
verificar que “a atividade neural relacionada com a decisão de resgatar
pessoas diminuía em certas regiões cerebrais quanto maior a capacidade
de usar estratégias de ‘coping’, o que sugere uma aprendizagem
compensatória adquirida com a prática”, vincou o neurocientista.Os
bombeiros participantes no estudo “visualizaram cenários realísticos
envolvendo vidas em risco para eles próprios e potenciais vítimas, tendo
que tomar uma decisão de resgate”, adiantou Miguel Castelo Branco.O
exercício simulava o combate a incêndios com situações de risco de
vida, como casas a arder com pessoas em risco no interior, situação em
que a formação prévia e a especialização dos bombeiros desempenham um
papel importante, tendo o cérebro dos participantes sido estudado
através de imagem por ressonância magnética funcional.“Descobrimos
ainda que a atividade cerebral em regiões relacionadas com a memória e a
decisão – como o hipocampo e a ínsula – aumentava proporcionalmente à
medida que o risco aumentava”, ilustrou Miguel Castelo-Branco.“Foi
possível identificar áreas cerebrais cuja atividade se relacionava
diretamente com o cálculo da probabilidade de eventos adversos, como a
queda de uma casa em chamas ou a perda de vidas”, notou o investigador.Paralelamente,
pessoas que não possuem a função de bombeiro, quando sujeitas às mesmas
tarefas de decisão, apresentaram resultados cerebrais diferentes,
levando os cientistas a concluir que a forma como o cérebro controla a
decisão depende da experiência e do treino.