Estratégia de combate à corrupção foi "opção clara pela prevenção" -
12 de out. de 2020, 16:17
— Lusa/AO Online
"Do nosso ponto
de partida a prevenção é a única abordagem que nos permite ir às raízes
do fenómeno e enfraquecê-las", disse Francisca van Dunem ao intervir num
debate na Universidade Católica, em Lisboa, inserido num ciclo de
debates sobre a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção para
2020-2024, em que será discutida a ‘Transparência do Estado e Combate à
Corrupção.Sobre a aposta na prevenção, a
ministra disse estar consciente de que "não é uma opção de retorno
imediato", mas contrapôs: "Se não a tomarmos levaremos mais 800 anos a
falar da cultura, dos hábitos sociais e das formas de organização do
Estado que favoreceram a sua captura por redes de influência e poder.Por
isso, acentuou, a opção do Governo "é claramente pela prevenção", mesmo
sabendo que esta opção "não é consensual", pois "há quem entenda que a
eficácia da repressão é o grande antídoto para tentações improbas". Na
nova abordagem, a ministra defendeu a prevenção através do conhecimento
e da formação, envolvendo a educação formal e a formação na
Administração Pública, bem como a prevenção pela transparência e clareza
nos procedimentos legislativos e administrativos, e simplificação e
redução de barreiras regulatórias, facilitação do acesso do acesso dos
cidadãos a serviços públicos e melhoria da gestão pública e ativação dos
mecanismos de controlo."Envolver o setor
privado neste pacto anticorrupção impondo às suas organizações – a
partir de certa dimensão - a adoção de programas de cumprimento
normativo em moldes idênticos aos que vigorarão no setor público: mapas
de identificação de riscos, planos de prevenção, códigos de conduta,
canais de denúncia e responsáveis pelo cumprimento normativo, com a
aplicação de sanções em caso de incumprimento", foram outras das ideias
transmitidas por Francisca van Dunem.Nesta
mudança de paradigma no combate à corrupção, a ministra apontou ainda a
importância de dialogar com as instituições da sociedade civil que se
dedicam há anos a trabalhar nestas matérias e à necessidade de
identificar novas tendências, riscos e ameaças, recolhendo, tratando e
produzindo com regularidade informação sobre a corrupção e a fraude.
Sem deixar de acompanhar a atividade das organizações internacionais,
Francisca van Dunem destacou que "o grande objetivo é capacitar o
sistema com uma compreensão completa do fenómeno, reunindo dados que
permitam definir indicadores de risco, corrigir más práticas e
concentrar a investigação, de forma inteligente e seletiva, nos
principais focos de incidência da corrupção".Assim,
disse, para dar corpo a estas missões e para garantir a efetividade de
políticas ativas de prevenção da corrupção, "a Estratégia aponta para a
criação de uma entidade com poderes de iniciativa, controlo e
sancionamento".Deste modo, explicou, a
repressão é "configurada na Estratégia como solução última”, ou “o
momento reservado à intervenção do direito penal nas sociedades
democráticas".A ministra apontou também
para a necessidade de "aproximação do início da investigação à data da
ocorrência dos factos", bem como a "criação de condições que facilitem o
esclarecimento do crime, considerando as suas características de
opacidade e a existência de pactos de silêncio".Maior
celeridade na tramitação processual e a exigência de maior eficácia e
capacidade dissuasora das sanções penais foram outras das medidas
propostas por Francisca van Dunem.Referiu
ainda que quando o Governo coloca a Estratégia em discussão pública o
faz "como que um apelo às armas!" lancando o seguinte desafio: "Venham!
vamos sair todos da grande zona de conforto que é o criticismo e vamos
construir em conjunto as respostas que tenhamos como mais robustas e
idóneas ao enfrentamento de um fenómeno que constitui uma das grandes
tragédias das sociedades contemporâneas".Francisca
van Dunem frisou que a Estratégia é "um documento em construção", mas
isso não significa que não parta de escolhas e de opções, sendo contudo
"um documento aberto à reflexão, à busca do mais justo dos equilíbrios".
O debate juntou os organizadores da
iniciativa, Paulo Pinto de Albuquerque, Professor Catedrático da
Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa, José Mouraz
Lopes e Paulo Dá Mesquita, ambos juízes conselheiros do Tribunal de
Contas, com a finalidade de analisar as principais medidas propostas
pelo executivo para reduzir o fenómeno da corrupção em Portugal.A
Estratégia Nacional de Combate à Corrupção para 2020-2024 é um
documento que identifica as grandes prioridades para a redução da
corrupção nos setores público e privado em Portugal. Após
a sua aprovação no dia 3 de setembro em Conselho de Ministros, o
documento encontra-se disponível para consulta pública, antes de seguir
para votação no parlamento.