Estrangeiros impedidos de entrar em Portugal nos aeroportos vão ter direito a advogado
5 de nov. de 2020, 08:35
— Lusa/AO Online
O
protocolo de cooperação para assistência jurídica ao cidadão
estrangeiro assinado no Ministério da Administração Interna (MAI, entre o
ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, a ministra da
Justiça, Francisca van Dunem, e o bastonário da Ordem dos Advogados,
Luís Menezes Leitão.Segundo o MAI, o
protocolo garante a assistência jurídica do Estado a cidadãos
estrangeiros cuja entrada em território nacional tenha sido recusada nos
aeroportos de Lisboa, Porto, Faro, Funchal e Ponta Delgada, assegurando
assim “o pleno acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus
direitos e interesses legalmente protegidos”.“Temos
de distinguir aquilo que são situações muito diversas, aquilo que é a
migração legal que todos desejamos incentivar, acolher e integrar,
aquilo que é a busca de asilo ou proteção internacional dirigidos a
Portugal fugindo da perseguição política, religiosa ou situações de
guerra ou crise ambiental e temos aqueles que são vítimas de fenómenos
de tráfico de seres humanos, de imigração irregular e fenómenos
criminais de natureza diversificada”, disse Eduardo Cabrita, na
cerimónia de assinatura do protocolo.O
ministro acrescentou que não se sabe, quando estes cidadãos chegam a
Portugal por via aérea, “qual o quadro jurídico que fundamenta uma
situação de admissibilidade de entrada no país”.Nesse
sentido, o governante sublinhou que “a todos eles o acesso ao direito é
fundamental”, sendo esta parceria com a Ordem dos Advogados “essencial
para o estado de direito”.Para Eduardo
Cabrita, o acesso a um advogado é “tão importante” quanto o
acompanhamento médico e sanitário feito nos centros do Serviço de
Estrangeiros e Fronteiras que existem os aeroportos pelos Médicos do
Mundo, como pela Provedora de Justiça ou pela Inspeção-geral da
Administração Interna.Por sua vez, a
ministra da Justiça afirmou que era preciso regularizar a situação e
garantir que estes cidadãos passem a ter “efetivamente direito em
condições análogas àquelas que acedem os cidadãos que residem legalmente
em território nacional”.Francisca van
Dunem explicou que estes cidadãos já tinham anteriormente acesso ao
direito, “mas de uma forma absolutamente irregular e de modo
casuístico”.A ministra disse ainda que
este protocolo vai “uniformizar e dar acesso igual a todos”, permitindo
que estes cidadãos quando chegam ao país fiquem numa posição de
igualdade relativamente a qualquer cidadão que resida legalmente em
Portugal.Já o bastonário da Ordem dos
Advogados considerou “muito importante que os cidadãos estrangeiros que
chegam ao país em situações de extrema fragilidade possam ser
protegidos, principalmente se existir uma situação de recusa de entrada
no território português e não terem a quem recorrer”.Luís
Menezes Leitão recordou que neste quadro “já houve situações
lamentáveis nos aeroportos portugueses”, frisando que este protocolo
poderá servir para que não se voltem a repetir.O
bastonário explicou que os honorários dos advogados que asseguraram
esta assistência jurídica serão suportados pelo MAI, mas para poderem
ter o sistema de acesso ao direito a funcionar será através do
Ministério da Justiça e do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos
da Justiça através, que cria as escalas e assegura a remuneração.O
último relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo do SEF dava conta que
quase cinco mil estrangeiros foram impedidos de entrar em Portugal em
2019, um aumento 32,9% em relação a 2018, e a maioria ocorreu nos postos
de fronteira aérea, nomeadamente no aeroporto de Lisboa, onde se
registaram 4.823 recusas de entrada (96,6%).Cerca
de 79,4% das recusas de entrada incidiram, em 2019, sobre cidadãos do
Brasil (3.965), seguidos de Angola (202), Guiné-Bissau (72) e Senegal
(54).