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“Estou sempre aberta a novos desafios que estejam alinhados com os meus valores”

Joana Damião Melo. O gosto pela hotelaria surge quando os pais abriram a Senhora da Rosa em 1994. Nunca teve dúvidas de que era esta a área que iria seguir e não se vê a fazer outra coisa porque “é uma paixão e um compromisso”. As experiências profissionais que teve contribuíram para o que é hoje



Autor: Susete Rodrigues

Joana Damião Melo, coproprietária e diretora do Senhora da Rosa Tradition & Nature Hotel, passou a sua infância e adolescência na ilha de São Miguel, onde teve “a sorte de crescer rodeada pela natureza, pelo mar, pela família e tradições”, conta-nos para acrescentar que pelo meio, fez “algumas viagens com os pais e irmão que me ajudaram a alargar horizontes, ver novas realidades e enriquecer a minha visão do mundo”. Para si, “crescer aqui deu-me uma ligação forte à ilha e valores que me acompanham em tudo o que faço e que também se refletem na minha parte profissional”.

O seu gosto pela hotelaria surgiu de forma natural, aos 15 anos, quando os pais abriram a Estalagem Senhora da Rosa em 1994. Refere que “sempre gostei de ver como recebiam amigos e familiares em casa, e mais tarde como levaram essa arte de bem-receber para a estalagem”. Por outro lado, acompanhava de perto a mãe “na criação de ambientes únicos e acolhedores com a sua decoração - e no fim, o melhor de tudo era ver a felicidade das pessoas!”. Não surpreende que tenha estagiado em part-time na receção da Estalagem Senhora da Rosa em 1996, “ainda me lembro da alegria com que ia trabalhar e a forma séria como assumia a minha responsabilidade, mesmo tendo 16 anos. A ideia de transformar esse gosto numa carreira foi crescendo aos poucos, e aos 18 já sabia exatamente o que queria seguir: hotelaria”, disse.

Joana Damião Melo foi para Lisboa para a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, confessa que “deixar a ilha foi um misto de entusiasmo e saudade. Ir para Lisboa representou uma oportunidade de crescimento pessoal e académico”, sublinhando que a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril é “uma universidade muito especial, com um ambiente familiar e acolhedor. Por isso, apesar de estar longe da família integrei-me facilmente. Na ESHTE aprofundei conhecimentos e desenvolvi competências que hoje são essenciais no meu dia a dia profissional”.

As suas primeiras experiências profissionais passaram por diferentes áreas da hotelaria, desde receção à área financeira, incluindo o departamento comercial. Conta que trabalhou em unidades hoteleiras independentes, algumas com um cariz familiar e outras de grandes cadeias internacionais, o que lhe permitiu compreender “a complexidade do setor e a importância dos detalhes”. 

Esteve no Hotel Palace em Madrid, onde teve o seu primeiro contacto com o mercado de trabalho fora dos Açores, enquanto estagiária. Diz que foram “seis meses intensos, cheios de aprendizagens que ainda hoje recordo e aplico com muita frequência. Sem dúvida, a minha grande escola ‘real’!” Mais tarde, no Hotel do Chiado, “tive o meu primeiro contrato de trabalho, onde desempenhei funções de Income Audit”, afirma para explicar que “apesar de a área financeira nunca ter sido a minha eleita, reconheço o seu papel fundamental, especialmente quando se ambiciona chegar a cargos de gestão ou ter o seu próprio negócio”. Por isso, “acredito que todas estas experiências, e as que se seguiram, contribuíram para o que sou hoje, deram-me resiliência, capacidade de liderança e uma visão estratégica que aplico diariamente na gestão da Senhora da Rosa”.

O desejo de querer que o filho nascesse em São Miguel e a “vontade profunda de contribuir para o desenvolvimento da minha terra”, são as principais razões do regresso de Joana Damião Melo aos Açores. Conta que “sentia que era hora de regressar e de colaborar na criação de projetos que valorizassem a identidade açoriana e oferecessem uma experiência diferenciadora aos visitantes”. 

Questionada sobre como surgiu a ideia de reerguer a Senhora da Rosa, diz que surgiu “da ligação emocional ao espaço e da vontade de preservar a sua história — não só a minha, mas também a dos meus pais e do meu irmão”. Lembra que a Senhora da Rosa “era uma propriedade com grande valor patrimonial e afetivo, e vi nela o potencial para criar um hotel que respeitasse a tradição, integrasse a natureza e oferecesse uma experiência autêntica. O meu irmão e sócio, Miguel Damião, partilhava essa mesma ligação e intenções. Mais tarde, convidámos o meu amigo José Pedro Sousa para se juntar ao projeto como sócio, e ele aceitou sem qualquer hesitação”. Foi, sem dúvida, um processo desafiante, mas “profundamente gratificante para todos nós”, mas também foi e continua a ser o maior desafio da sua carreira: “Reerguer a Senhora da Rosa exigiu visão, coragem e uma enorme dedicação. Cada etapa do projeto trouxe aprendizagens e superações”, confessou. 

De acordo com Joana Damião Melo, embora os riscos e desafios nunca deixem de existir, “já estou focada no próximo grande capítulo: o nosso novo projeto, a ‘Casa do Barão’, que promete ser mais uma grande ‘aventura’”.

E o que diferencia a Senhora da Rosa das demais unidades hoteleiras na Região? Joana Damião Melo diz ser a “sua autenticidade, pela ligação à terra e pela atenção ao detalhe. É um hotel que respeita a tradição açoriana, valoriza os produtos locais e oferece experiências únicas. Pretendemos que mais do que uma estadia, seja uma vivência sensorial e emocional”.

Enquanto proprietária e diretora de uma unidade hoteleira, todos os dias surgem desafios, os principais, segundo a empresária, “passam pela gestão de equipas, pela manutenção da qualidade e pela adaptação constante às exigências do mercado”, disse para sublinhar que é “preciso conciliar a visão estratégica com a operação diária, garantir a sustentabilidade do negócio e manter uma cultura de excelência e inovação”.

Neste seu trajeto, Joana Damião Melo recebeu o prémio de “Melhor Gestora do Ano 2021”, no âmbito das 100 Maiores Empresas dos Açores e em 2024 venceu, na categoria de ‘Melhor Diretor de Hotel’, os Prémios Xénios 2024 – Excelência na Hotelaria, iniciativa da ADHP, prémios que significam “um reconhecimento muito especial, porque representam o trabalho de uma equipa dedicada, a concretização de uma visão e a valorização do esforço contínuo. São também uma motivação para continuar a inovar e a contribuir para o desenvolvimento da hotelaria nos Açores”.

Se se vê a ter outra profissão? Afirma, bem disposta, que não, “nem hoje nem nunca”, porque a “hotelaria é uma paixão e um compromisso. Gosto da dinâmica, da criatividade e da possibilidade de fazer a diferença na vida das pessoas. Mas estou sempre aberta a novos desafios que estejam alinhados com os meus valores”.

Sobre sonhos que gostava de realizar, fala-nos da criação de “uma rede de unidades que valorizem a identidade açoriana, cada uma com a sua personalidade, mas com um fio condutor comum: a autenticidade, a sustentabilidade e a excelência. Gostaria também de investir na formação de jovens talentos locais, para que possam crescer e brilhar na sua/ nossa terra”, finaliza.