Este país precisava era de uma seringa debaixo de cada árvore
26 de dez. de 2020, 20:20
— AO Online
A Dona Eulália, como qualquer ser humano,
é uma criatura de contrastes. Só que o caso dela é quase patológico.
Estamos em 2020, (ainda, infelizmente) no
contexto de uma pandemia. Por esta altura, praticamente toda a gente já conhece
mais ou menos os procedimentos: lavar as mãos tornou-se compulsão, o gel
desinfetante passou a bem de primeira necessidade, entrar em curto-circuito
mental quando alguém se aproxima de nós é agora regra e as máscaras são um
acessório como qualquer outro. Mais depressa saímos de casa sem cinto a segurar
as calças do que sem máscara a segurar as gotículas.
E a Dona Eulália, justiça lhe seja feita,
compreende bem os perigos da situação; só que, dez meses depois, ainda não sabe
bem como se deve governar. Mulher de convicções fortes, sempre que há um novo pico de
infeções vai para a internet afirmar que devia-se era fechar os aeroportos,
fechar os bares, fechar as fronteiras e fechar o Mundo, no geral. Só não se
devia fechar era a pastelaria ali da esquina, porque é lá que o café lhe sabe
melhor e o senhor Antunes até tem muito cuidado com isto do vírus, já que está
sempre a limpar as chávenas com aquele paninho que também usa para limpar o
balcão.
Queixa-se a senhora de fazer parte do chamado
grupo de risco, e de ninguém pensar nos mais vulneráveis; mas também diz que lhe
dá pouco jeito usar máscara – no Verão
porque está muito calor e no Inverno porque, com os óculos, aquilo fica tudo
embaciado, e é uma chatice –, e que aquilo irrita-lhe principalmente a zona do
nariz. Por isso, prefere andar com ele a espreitar por cima do acessório e a
intrometer-se nas vidas alheias.
E se, de facto, alguém à volta dela apanha a
doença, é muito importante para a Dona Eulália que se ostracize aquela pessoa,
porque aquilo não pode ser boa rês e, se se infetou, é porque deve ter andado por
aí a fazer o que não devia.
Nos dias de hoje – e depois de muitas
reprimendas que lhe deram nas filas do supermercado –, a Dona Eulália já
percebeu pelo menos que tem de manter o distanciamento social; mas, ao mesmo
tempo, quer ter a casa cheia no Natal, como se a família dela tivesse sido a
única a receber imunidade dentro do sapatinho. E, se fecham as estradas, ela reclama
do Governo e dessa gente da política, porque não são um ou dois dias que vão
fazer diferença e o bacalhau até já está demolhado, e era uma pena perder-se.
Para essa coisa da vacina é que não
contem com ela... Sim, é verdade que passou semanas e semanas a criticar a
demora que “essa gente” faz para arranjar uma solução, mas, agora que ela
realmente existe, a Dona Eulália dispensa a seringa, porque tem medo dos
efeitos secundários. Toma cinco comprimidos de manhã que lhe dão cabo do fígado
e dos rins, dois ao almoço que lhe mexem com as hormonas e fazem crescer o buço
e bebe uma ampola com um chá de várias ervas do quintal que lhe disseram na
televisão que era bom para fortalecer as dobradiças corporais. Mas a vacina é
que não! Os outros que a tomem primeiro, para ver se é segura.
Apesar de tudo isto, a Dona Eulália há-de
viver até aos 100 anos. Mas só se Deus quiser, já que ela, pelos vistos, não faz
questão.