Estatuto do idoso “é meramente teórico, sem nada que leve à concretização”
Hoje 09:46
— Daniela Arruda
O Estatuto da Pessoa Idosa, aprovado pela Assembleia da República, “é
meramente teórico, sem nada que leve à concretização”, criticou Fátima
Garcia, responsável pelo Departamento de Aposentados do Sindicato dos
Professores da Região Açores (SPRA). Para falar sobre este e outros
temas relacionados com a velhice e a dignidade, o sindicato promove esta quinta-feira, às 14h00, um Encontro Regional de Aposentados, no Laboratório
Regional de Engenharia Civil, em Ponta Delgada.Para Fátima Garcia, o
documento reúne “um conjunto rico de princípios”, mas falha em
transformar esses direitos em medidas concretas. “Falam no direito à
segurança económica, social, cultural, mas depois não existe aplicação
prática prevista”, afirmou, considerando que os idosos continuam sem
respostas suficientes para os problemas do dia a dia, como as pensões
baixas e as dificuldades no acesso à saúde e aos transportes.A
desvalorização das pessoas aposentadas é um dos temas que hoje estará
em debate. Fátima Garcia confessa que “o aposentado já não é uma pessoa
considerada válida, é ignorado”, e diz que este é um sentimento cada vez
mais enraizado na sociedade portuguesa, não sendo um problema apenas
dos Açores.O objetivo não é falar apenas da exclusão social dos mais
velhos relacionada com o isolamento, mas também trazer para o debate
outra forma de exclusão: a falta de reconhecimento da experiência e do
conhecimento que uma pessoa mais velha adquiriu ao longo da vida. “Há
pessoas que, depois da reforma, continuam com capacidade para dar um
contributo muito forte à sociedade, mas isso não é aproveitado”,
sublinhou. A aposentação, ou a reforma, dependendo da profissão, não
significa que aquela pessoa deixe de ter utilidade social. Há indivíduos
que querem continuar a contribuir, mas que não conseguem encontrar o
seu espaço.Entre as
principais preocupações estão o valor das pensões, a atualização que não
acompanha o aumento do custo de vida, as dificuldades no acesso à saúde
e os problemas de mobilidade. Fátima Garcia destacou, por exemplo, as
limitações que existem nas deslocações entre ilhas para consultas e
tratamentos. Por outro lado, dentro da própria ilha, os transportes
também não parecem ser suficientes.“Também o acesso aos convívios
sociais, às deslocações, mesmo no dia a dia, as construções nas ruas, o
acesso aos prédios, embora em Ponta Delgada já não haja muito isso,
porque já há muita possibilidade de as pessoas com mobilidade reduzida
poderem ter acesso aos sítios, mas isso é muito localizado e é uma falha
muito grande a nível do país”, mencionou, referindo algumas das
dificuldades sentidas na Região. Fátima Garcia sublinhou ainda que a
Constituição da República Portuguesa já consagra vários destes
direitos, como segurança económica, a habitação, o convívio familiar e
comunitário e medidas de combate ao isolamento social. Ainda assim,
considera que “é exatamente na prática que falha”.O encontro integra
a preparação da 4.ª Conferência Nacional de Docentes Aposentados da
FENPROF, agendada para novembro. A iniciativa é aberta a todos os
reformados e aposentados, e não só a professores, e pretende reunir
contributos locais para depois serem levados ao debate nacional. Além
disso, quer sensibilizar as entidades locais para a importância de
medidas dedicadas a um velhice com dignidade.