“Estar no Team Além Mar tem de ser motivo de orgulho”
Hoje 09:58
— Arthur Melo
Ano novo, equipa nova, novo navegador e um carro novo; são muitas novidades para este ano de 2026 que começa agora, já no próximo fim de semana, com o 1.º Rali da Praia. Primeira questão: como é que surgiu a possibilidade de o Rafael Botelho integrar o Team Além Mar?A possibilidade de integrar o Team Além Mar é fruto daquilo que foram dois anos muito positivos, 2024 e 2025. Obviamente que o Team Lotus foi criado em 2024 com o objetivo de a Fábrica de Tabaco Estrela ter uma presença nas duas rodas motrizes (2RM), alargando o leque de apoio ao panorama regional automobilístico que já vai longo. Fomos campeões nesse ano e em 2025 fizemos um ano fantástico, no sentido em que fomos bicampeões, o Team Lotus foi a equipa campeã por equipas, vencemos sete das oito provas das 2RM e fomos a única dupla que esteve no pódio à geral em todos os ralis. À parte disso, um segundo vetor que eu também defendo, que é comunicar bem, e nós também nessa parte estivemos bem. E acho que isso foi a rampa de lançamento para, quem de direito, perceber que devia ser impactante para o Team Além Mar, numa altura de reestruturação - e acho que isso é sabido, no que diz respeito àquela entidade. No entanto, não quiseram deixar de apoiar o nosso projeto e estar presentes no Campeonato dos Açores de Ralis (CAR) com o Team Além Mar em 2RM, algo que também já não acontecia há mais de 20 anos, porque desde há muito tempo têm sido carros de quatro rodas motrizes. Estar no Team Além Mar, obviamente que tem de ser motivo de orgulho e satisfação, porque acho que é o reconhecer de um trabalho fantástico que fizemos em relação ao Team Lotus durante dois anos, mas também desde o início da minha carreira, com um crescimento sustentado, sempre com os pés bem assentes na terra e que nos possibilita, ano após ano, ir melhorando, tendo viaturas melhores e, obviamente, alcançando resultados melhores.Foi um convite que me agradou muito e que tive toda a vontade de aceitar logo, porque acho que faz sentido, por tudo aquilo que já conquistei no CAR, e não sabendo qual é o meu futuro, pelo menos ter um ano na melhor equipa de ralis dos Açores é fruto do nosso trabalho, é uma página que se vira muito interessante e que se espera positiva, que acarreta a responsabilidade não só dos dois títulos regionais que nós temos seguidos, mas de representar um patrocinador histórico para a região.Revalidar o título nas 2RM é o principal objetivo para 2026?Eu acho que é legítimo pensarmos assim, faz parte do objetivo. 2024 e 2025 foram anos muito bons e 2026 será aquilo que for. O que andamos até o ano passado em nada contará a partir do primeiro rali que vamos fazer. A verdade é que temos de começar uma época nova, uma época que tem algumas diferenças, no entanto, vamos começar por dar o nosso melhor, lutar a cada quilómetro para que consigamos atingir os nossos objetivos que passam, obviamente, pelas 2RM, mas também à geral. Não sei quantos pilotos de quatro rodas motrizes vão haver, mas também temos uma palavra a dizer no pódio à geral. Isso também é aquilo que nos motiva. Sou um defensor do CAR, tenho plena noção de que o parque automóvel poderá não estar tão atualizado nos últimos anos, no entanto, há algo que me deixa muito satisfeito: trouxemos o Peugeot 208 Rally 4, com apoio da Sotermáquinas, em 2024 a tempo inteiro. Foi o primeiro carro e nesse ano apareceram mais dois ou três. Neste momento estão registados na região mais de 10 carros desses, portanto espero que possivelmente a meio de campeonato, se não os 10, mas pelo menos nove, estejamos todos à partida de um ou dois ralis, porque isso também é sinal de que, sobretudo nas 2RM, o campeonato está competitivo e evoluído, e acho que isso deve-se louvar. É sangue novo! Durante muito tempo levei a bandeira do mais novo, a verdade é que o mais novo já vai há mais de 10 anos e fico contente que apareçam pilotos mais novos e que naturalmente, mais cedo ou mais tarde, estarão num ritmo muito bom e nós vamos tentar defender sempre o nosso andamento. O objetivo tem que passar por aí no panorama regional, até pelos patrocinadores que temos, pelos patrocinadores de carreira que estão comigo desde a primeira hora e por todas as pessoas, entidades e a minha equipa que me ajuda a estar nos ralis nas melhores condições. Somos muito conscientes daquilo que fazemos. O nosso campeonato vai começar na Terceira e até o seu término, foi aquilo que nos foi possível fazer, e vamos estar em todas as provas com a ambição de fazer o melhor resultado possível.O projeto de realizar algumas provas no continente é para concretizar este ano?Gostava muito. Tentei no final do ano passado, início deste ano, montar um projeto que abrangesse o continente; duas ou três provas do Nacional; duas ou três provas do Regional Norte, uma do Nacional. Não foi fácil. Não vou dizer que está em stand-by, ou que esteja enfraquecido; poderá vir a acontecer. Vamos ver com o desenrolar do CAR se haverá alguma brecha nesse sentido. Eu gostava, até pela experiência que tive no motocrosse, mas também pela necessidade de sair da minha zona de conforto e experimentar novos ralis.Embora seja a mesma marca e modelo, o que é facto é que vai ter nas mãos um novo Peugeot 208 Rally4 e, do lado direito, um novo navegador. Isto significa que será começar tudo de novo?Em relação ao carro, não era para trocar de carro, até porque o projeto do primeiro 208 Rally 4 era a três anos e este seria o terceiro ano. No entanto, surgiu a possibilidade de fazer a venda. Esse carro continua nos Açores, aliás foi a São Jorge e fez pódio. Por via disso, tivemos que num curto espaço de tempo - e tenho que agradecer a Sotermáquinas, através da ligação à Stellantis Portugal e também da Sports & You, que é a empresa detentora dos direitos de montagem e venda do grupo Stellantis para a Península Ibérica -, num tempo recorde de um mês conseguimos ter um carro pronto para correr, porque o nosso carro foi vendido três semanas antes de São Jorge. Automaticamente ficámos completamente barrados de ir a São Jorge, mas queríamos estar presentes no 1.º Rali da Praia.Foi um contrarrelógio, mas temos um carro novo. A esse nível não me traz grande preocupação, porque temos muito trabalho desenvolvido nesses carros, nada mudou, o carro é exatamente igual, portanto já temos muita segurança em quase todas as afinações. Temos dois ou três tópicos que queremos experimentar quando entrarmos na parte de asfalto, que não tivemos a oportunidade de testar no carro antigo e vamos tentar introduzir neste. Isso é um sinal forte de, independentemente de podermos estar numa zona confortável, e no ano passado estávamos com as vitórias seguidas, mas sempre na tentativa de procurar algo que por vezes pode não ser tão confortável para mim a conduzir, mas torna o carro rápido. Portanto, essa necessidade constante de evolução também diz muito do modo que eu vejo as corridas e defendo o CAR e a competitividade nele. Em relação ao carro estamos seguros que será competitivo e obviamente é sempre bom ter um carro novo, zero quilómetros. Acho que é uma lufada de ar fresco e de segurança para a minha equipa, o que nos permite fazer mais alguns quilómetros de testes para tentarmos sempre ter um bocadinho mais de ritmo e soluções que depois se forem para aplicar em prova me deixem confortável.Para além do carro novo, temos também um novo navegador, o Tiago Silva. O Tiago trabalha na equipa há cinco ou seis anos e quando digo que o Tiago tem muitos quilómetros de carro, quero dizer que nos muitos testes que fiz em São Miguel, quer de terra, quer em asfalto, na altura não compensava o Rui [Raimundo] vir aos Açores fazer os testes de carro. O Tiago já andou muitos quilómetros comigo de Skoda, já andou muitos quilómetros comigo de Peugeot na terra e no asfalto e foi desenvolvendo aquele gosto e aquele interesse pelos ralis, foi percebendo o meu método de trabalhar, foi percebendo o que se mexe no carro, o que é que isso pode resultar, e foi começando a despertar nele o ‘e se tiver um caderno de notas nas mãos, como é que isso funciona? Se tiver um road book, como é que isso funciona? Se tiver uma carta de controlo, como é que isso funciona?’. A verdade é que este ano, embora não consecutivo, seria o décimo ano com o Rui Raimundo. Começamos a trabalhar em 2016 no Azores Airlines Rallye, e todos os nossos procedimentos estavam muito oleados, nós nos conhecíamos muito bem. Por motivos profissionais, o Rui este ano não pôde abraçar o panorama dos Açores e tivemos que procurar uma alternativa. Como já estava confirmada a entrada no Team Além Mar, procurei que fosse um navegador açoriano. Acho que fazia mais sentido trazer um navegador açoriano ao Team Além Mar e, mais do que isso, jovem. O Tiago tem 33 anos, é uma aposta nossa, é jovem, é micaelense. O Tiago é embebido do meu espírito e estivemos com o Nuno Rodrigues da Silva - que foi campeão mundial, foi meu navegador, foi campeão dos Açores comigo em 2016 e 2017 - a trabalhar com o Tiago mais de uma semana. O Tiago teve um longo processo de teórica com o Nuno e depois prática comigo e com o Nuno. Isso também é um sinal claro da ambição que colocamos neste projeto, trazendo o Tiago para o Team Além Mar e para o CAR, mas também do nosso grau de confiança no Tiago, porque demos as melhores bases para ele estar confiante já a partir do 1.º Rali da Praia. Eu e toda a minha equipa estamos conscientes que o Tiago vai fazer um bom trabalho, é uma pessoa muito comprometida, muito perfecionista, que conhece os meandros da equipa e isso facilita. Além disso, teve a oportunidade de trabalhar com o melhor navegador português, o Nuno Rodrigues da Silva.No próximo fim de semana temos o 1.º Rali da Praia, a segunda prova do Campeonato dos Açores de Ralis (CAR), mas para o Rafael Botelho será a primeira prova da temporada de 2026. Quais são as expectativas para a prova organizada pelo Terceira Automóvel Clube?Acima de tudo, que corra bem a todos, para que seja um rali engraçado. O CAR - acho que deve-se fazer esta ressalva -, já o ano passado estava, e obviamente este ano está ainda mais, muito extenso. Penso que o campeonato devia ser mais curto, independentemente de incluir mais ilhas ou não, mas haver aqui um sistema de rotatividade, aliás como já tive a oportunidade de falar nisso numa entrevista que concedi ao Açoriano Oriental no início do ano.Por questões logísticas e monetárias só foi possível começar a partir de agora e vamos fazer o nosso melhor daqui para a frente.Fico contente que o Terceira Automóvel Clube tenha conseguido arranjar um parceiro a quatro anos, que é o município da Praia [da Vitória], para a realização do 1.º Rali da Praia.Este rali vai ser bastante desafiante. Os troços são relativamente rápidos, interessantes, passam em algumas zonas de pastagens ou lavoura, e traz sempre aquela sujidade mítica da Terceira aos troços, mas acho que vai ser um rali muito disputado, porque os troços são muito idênticos, não são troços muito técnicos, não existem muitas curvas em que seja possível fazer uma grande diferença entre ritmos, carros e pilotos - obviamente isso dentro das 2 rodas motrizes, porque quem tem carros de 4 rodas motrizes tem outra vantagem.Acho que vai ser um rali disputado em que nós temos, desde a primeira superespecial, de entrar muito rápido. Vai ser um rali ao sprint, não está no limite da quilometragem do regional, está quase 10 quilómetros abaixo e 10 quilómetros fazem diferença. Portanto, vamos ter que entrar rápidos e dar o nosso melhor, sabendo que vai ser um rali no qual as diferenças vão ser curtas.Os troços escolhidos são muito idênticos. A Serra do Cume é um troço mais técnico, com algumas zonas rápidas, onde na parte técnica é preciso ter uma boa afinação, uma boa confiança. Vamos tentar fazer o melhor possível, e claro que o melhor possível é vencer, iniciar o campeonato com uma vitória, e se isso acontecer coloca-nos totalmente dentro dos nossos objetivos.