“Estamos a reconstruir o hospital com um pensamento de vanguarda”

Hoje 09:20 — Nuno Martins Neves

Foi revelado há duas semanas que um estudo encomendado à consultora Deloitte revelou inúmeras ineficiências e pontos de estrangulamento nos serviços do HDES. Que ineficiências e pontos de estrangulamento são esses e quais os seus impactos no serviço como um todo?Este estudo incidiu sobre os fluxos logísticos e financeiros, desde o Aprovisionamento e Farmácia até ao Bloco Operatório. Identificámos práticas de gestão de stocks e compras que careciam de uma maior profissionalização e conformidade com os novos padrões de contratação pública. A nossa intervenção atual visa a otimização absoluta de cada euro investido: estamos a implementar mecanismos para monitorizar custos e resultados, garantindo que o valor acrescido chegue de forma clara e direta ao utente do Serviço Regional de Saúde. Mais do que uma mera contenção, trata-se de eficiência clínica ao serviço das pessoas.A partir do estudo, haverá uma alteração organizacional dos serviços. O que significa isto, na prática, e o que é que implicará?Significa uma modernização estrutural que era inadiável, uma vez que a orgânica funcional não era revista desde 2009. Na prática, criámos um novo Serviço de Compras, centralizando processos que antes estavam dispersos. Isto introduz uma necessária segregação de funções: quem identifica a necessidade clínica não é quem executa o procedimento administrativo de aquisição. Esta transparência reduz custos operacionais, reforça o rigor legal e torna o HDES uma instituição mais sustentável e resiliente.Esta mudança também terá impacto nos recursos humanos? A que nível?Sim, no sentido da valorização de competências. Nas áreas não clínicas, procedemos a uma reafetação de profissionais para funções mais ajustadas aos seus perfis, o que gera maior eficácia e satisfação profissional. Nas áreas clínicas, onde enfrentamos carências crónicas de profissionais, o foco é a especialização. É fundamental que todas as nossas equipas compreendam que, independentemente da sua área, todos contribuem para o desfecho clínico final. O objetivo é prestar mais e melhores cuidados, conhecendo exatamente o impacto de cada intervenção na vida do doente.O facto de o Hospital Modular não estar fisicamente ligado ao edifício principal é uma ineficiência? Se sim, está prevista a sua correção?O Hospital Modular foi uma peça-chave e essencial para a retoma da atividade assistencial dentro do nosso campus. Sendo uma estrutura fisicamente segregada, impõe, naturalmente, desafios logísticos adicionais no transporte de materiais, fármacos e refeições. No entanto, esta é uma fase de transição. No planeamento futuro do HDES, esta estrutura será fundamental para o ambulatório e será construída uma ligação física — uma ponte aérea — entre os dois edifícios. Isso resolverá definitivamente as redundâncias logísticas identificadas e otimizará a circulação de doentes e profissionais.Assinala-se hoje o segundo aniversário do incêndio no HDES. Os últimos dados avançados pelo hospital apontam melhorias da atividade hospitalar, mas ainda há um problema com as cirurgias, com um avolumar das listas de espera. O que está previsto fazer-se para corrigir isto?O aumento das listas de espera é o reflexo direto do incremento substancial no número de consultas: estamos a diagnosticar e a referenciar mais utentes. Para inverter esta tendência, a estratégia do Conselho de Administração, em articulação com a tutela, passa pela reativação imediata da Cirurgia de Ambulatório no HDES. Vamos empreender melhorias para dotar este circuito de duas salas de bloco e recobro dedicados. Esta medida permitirá recuperar a lista de espera de forma célere e segura, sem depender da disponibilidade de camas de internamento convencional.Que lições foram aprendidas com o incêndio e que já estão agora em prática?O incêndio foi um catalisador de mudança. Expôs a obsolescência de uma infraestrutura que já não respondia às exigências atuais, mas também evidenciou o valor do nosso capital humano. A grande lição é a transição para o modelo de Value-Based HealthCare. Com esta mudança de paradigma, o sucesso do HDES deixa de ser medido apenas pelo volume de atos médicos, mas sim pela eficácia com que o doente recupera a sua autonomia e qualidade de vida. O futuro passa pelas Unidades de Prática Integrada, onde equipas multidisciplinares resolvem a condição do doente de forma coordenada, muitas vezes numa única deslocação. Estamos a reconstruir o hospital com um pensamento de vanguarda: maior transparência, melhor alocação de recursos e um foco total nos resultados clínicos que realmente importam ao cidadão.