Esquerda e PAN voltam a criticar PS e PSD por “darem cobertura” ao Chega
Constituição
3 de fev. de 2023, 12:29
— Lusa/AO Online
Na
segunda reunião efetiva da comissão de revisão constitucional foram
apresentadas as linhas gerais dos projetos do PCP, BE, PAN e Livre,
depois de na semana passada ter sido a vez de PS, PSD, Chega (que
desencadeou o processo) e IL. Pelo PCP, a
deputada Alma Rivera começou por defender que o partido “considera
indesejável este processo de revisão constitucional perante os
problemas” que o país atravessa, vincando que “o que se afigura
essencial é que a Constituição seja efetivamente cumprida, não que seja
revista”. Para os comunistas, este
processo “não é apenas desnecessário como condenável pelos seus
propósitos de subversão do regime democrático constitucional”.“O
que se lamenta é que perante mais um processo de revisão constitucional
aberto pelo Chega, que não esconde a sua hostilidade aos princípios
basilares do regime democrático constitucional, o PS e o PSD, partidos
de quem depende a aprovação de qualquer alteração constitucional,
aceitem credibilizar esse processo em vez de o rejeitar liminarmente”,
criticou. No entanto, face ao desencadear
do processo, continuou, o partido avançou com um projeto para “defender,
melhorar e aperfeiçoar a Constituição”. O
líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, também foi bastante
crítico relativamente aos dois maiores partidos, defendendo que, de uma
forma “absolutamente inexplicável, PSD por um lado, PS por outro,
quiseram dar cobertura a uma iniciativa do Chega”. “Esta
escolha é uma escolha que ajuda à normalização da extrema-direita. E se
o PSD o faz com a intenção de poder ter, no futuro, uma ponte para uma
qualquer possibilidade de governação, do lado do PS é uma
irresponsabilidade que não tem nenhum tipo de reconhecimento nem de
racionalidade”, atirou.Para o bloquista, a
alternativa seria ter deixado o Chega “a discutir sozinho” uma revisão
constitucional, à semelhança do que aconteceu quando os partidos
recusaram iniciar um processo deste tipo por iniciativa do partido
liderado por André Ventura, de forma a ter um “debate digno” e
“democrático”. Pedro Filipe Soares
defendeu também que “se [o processo] tiver sucesso e chegar ao final,
será uma prenda enorme à extrema-direita” e advertiu: “penso que PS e
PSD devem ponderar muito bem se é isso que querem”.O deputado referiu ainda a vontade do BE de consagrar na Constituição preocupações com o bem-estar animal.“Com
isso respondendo a decisões que, para nós, são um pouco
incompreensíveis – mas dentro do espaço de soberania do Tribunal
Constitucional - que atropelam o direito ao bem-estar animal por um lado
e, por outro lado, as leis que desta Assembleia saíram para a
condenação e criminalização a maus tratos sobre animais”, completou. Esta
foi também uma preocupação manifestada pela deputada única do PAN, Inês
Sousa Real, por considerar que “há uma emergência social na revisão da
Constituição para incluir a proteção animal”“Mas
essa revisão poderia ocorrer de forma extraordinária, tal como prevê a
Constituição, e não num processo ordinário. E não precisaríamos de ir a
reboque desta oitava revisão acabar por ter a chancela de uma força
política antidemocrática”, lamentou, criticando PS e PSD. Para
o PAN, neste processo, “não deve existir ruturas mas antes avanços que
sejam progressistas, de densificação dos direitos humanos ou de
inovação, como é o caso da proteção animal”.“E
num contexto de ascensão de forças populistas antidemocráticas, que
afirmam inclusivamente dentro do hemiciclo que querem deitar a
Constituição para o caixote do lixo (…) a revisão pode e deve ser uma
forma de consagrar a irreversibilidade dos direitos conquistados até
aqui”, sublinhou. Pelo Livre, o deputado
único Rui Tavares defendeu que “Portugal não tem um problema
constitucional”, ao contrário de alguns países da Europa ocidental,
considerando que este processo “é tudo o que não deveria ser”. O
deputado disse não atribuir “especiais responsabilidades a quem o
iniciou” uma vez que “já muitas vezes declarou publicamente que quer
mudar de Constituição, acabar com esta e ter uma outra a que chama da
quarta República”, responsabilizando os partidos que seguiram esta
vontade – PS e PSD.O deputado alertou que
“todos os regimes democráticos e estáveis comportam sempre a
possibilidade de haver oportunistas que se aproveitem das regras da
democracia para dar cabo da própria democracia”. Esta
comissão eventual de revisão constitucional tem como missão tentar
concretizar a oitava alteração à lei fundamental desde que esta foi
aprovada em 1976, num processo que acontece 18 anos depois da última
revisão, em 2005.