Espírito Santo é um “património coletivo que une gerações”

Hoje 11:20 — Filipe Torres

Quais são os principais objetivos das Grandes Festas do Divino Espírito Santo e o que distingue esta edição das anteriores?As Grandes Festas do Divino Espírito Santo existem, antes de mais, para honrar uma devoção que faz parte da identidade dos açorianos há séculos. O nosso principal objetivo continua a ser preservar e dignificar este património religioso e cultural, garantindo que as suas tradições permanecem vivas e que os valores da solidariedade, da partilha e da fraternidade continuam a inspirar a nossa comunidade.Ao mesmo tempo, procuramos que estas festas sejam cada vez mais inclusivas e capazes de envolver diferentes públicos. Esta edição volta a apresentar um programa muito completo, com cerca de três dezenas de iniciativas que conjugam a dimensão religiosa com momentos culturais, musicais e etnográficos. Temos também novidades na programação e reforçámos a aposta na sustentabilidade, dando continuidade ao trabalho que nos permitiu alcançar o selo prata “Evento Circular”. Tudo isto sem nunca perder de vista aquilo que verdadeiramente distingue estas festas: a sua autenticidade.Porque continua a devoção ao Divino Espírito Santo a ocupar um lugar tão importante na identidade e na cultura açoriana?Porque ela faz parte da nossa forma de ser enquanto povo. O culto ao Divino Espírito Santo acompanha praticamente toda a história dos Açores e ajudou a moldar uma identidade assente na fé, entreajuda, na proximidade entre as pessoas e no sentido de comunidade.Quando falamos do Espírito Santo, falamos de uma tradição que ultrapassa a dimensão estritamente religiosa. É um património coletivo que une gerações, freguesias e famílias, dentro e fora dos Açores. Basta olhar para a forma como a nossa diáspora continua a celebrar esta devoção para perceber que ela permanece um dos mais fortes elementos de ligação às raízes açorianas.Que papel desempenham estas festas na preservação das tradições religiosas e culturais dos Açores,sobretudo junto das novas gerações?Desempenham um papel absolutamente essencial. As tradições só permanecem vivas quando são vividas e transmitidas às novas gerações, e é precisamente isso que acontece nestas festas. É muito gratificante verificar que há cada vez mais jovens envolvidos nas mordomias, nos Impérios, nos grupos de foliões, nos cortejos e em toda a organização. Isso demonstra que esta herança continua a ser valorizada e que existe vontade de lhe dar continuidade.Ao mesmo tempo, procuramos complementar a dimensão religiosa com iniciativas culturais, como exposições, conferências ou apresentações de livros, que ajudam a contextualizar esta tradição e permitem que residentes e visitantes compreendam melhor o seu significado histórico e patrimonial.Quais são os momentos mais marcantes do programa que o público não deve perder durante este fim de semana?Seria difícil destacar apenas um momento, porque cada dia tem um significado muito próprio. A Mudança da Bandeira, a abertura do Quarto do Espírito Santo e a Partilha Popular das Sopas são momentos profundamente simbólicos e muito acarinhados pela população. Depois há o Cortejo Etnográfico das 24 freguesias, que é sempre uma extraordinária demonstração da riqueza das nossas tradições, e naturalmente a Missa da Coroação e a Grande Coroação dos Impérios, que representam o ponto alto da vivência religiosa destas festividades.Paralelamente, preparámos uma programação cultural diversificada, com concertos, conferências, a exposição “O Divino em Objetiva 25” e outras iniciativas que enriquecem a experiência de quem nos visita ao longo destes quatro dias.Quantas doses de sopas e de arroz-doce estão previstas para serem servidas nesta edição? Esse número representa um aumento em relação aos últimos anos?A confeção das sopas e do arroz-doce continua a representar um enorme empenho coletivo e um dos momentos mais emblemáticos destas festas. Mas mais do que os números, aquilo que verdadeiramente importa é manter vivo o espírito que está na origem desta tradição: partilhar com todos, sem distinção, aquilo que é um dos maiores símbolos do culto ao Divino Espírito Santo.Caso as condições meteorológicas se agravem, a organização dispõe de um plano de contingência para garantir que a confeção e a distribuição das sopas decorram normalmente?Como acontece em qualquer evento desta dimensão, existe sempre um acompanhamento permanente das condições que possam influenciar o normal desenrolar da programação. A organização trabalha de forma articulada com todas as entidades envolvidas e vai avaliando cada situação à medida que evolui, procurando encontrar, sempre que necessário, as soluções mais adequadas.O nosso objetivo será sempre garantir que as festividades decorram com segurança, preservando simultaneamente o espírito e a dignidade desta celebração.Como tem sido o envolvimento da comunidade, dos voluntários, das irmandades e das mordomias na preparação e realização das Grandes Festas do Divino Espírito Santo?Esse envolvimento é, sem dúvida, a maior força destas festas. A Câmara Municipal organiza este grande evento, mas ele só é possível graças ao extraordinário contributo das nossas 24 Juntas de Freguesia, das mordomias, dos Impérios, das instituições, das empresas parceiras e de centenas de voluntários e colaboradores da autarquia.Há um enorme espírito de missão e uma disponibilidade muito genuína para servir a comunidade. É isso que faz destas festas uma manifestação tão autêntica da identidade açoriana. Todos contribuem com aquilo que sabem fazer melhor e esse esforço coletivo traduz-se numa celebração que continua a mobilizar todo o concelho.Que impacto esperam que estas festas tenham na economia local e na promoção de Ponta Delgada como destino turístico?Hoje, as Grandes Festas do Divino Espírito Santo afirmam-se claramente como um dos principais acontecimentos religiosos e culturais dos Açores. São um importante fator de atração para Ponta Delgada, trazendo visitantes, emigrantes e peregrinos que contribuem para dinamizar a hotelaria, a restauração, o comércio e muitos outros setores da economia local.Mas existe também um impacto menos imediato e igualmente importante. Estas festas permitem afirmar Ponta Delgada como um destino onde a autenticidade, a cultura e as tradições continuam vivas. Num contexto em que os turistas procuram experiências genuínas, esta celebração constitui um dos melhores cartões de visita do nosso concelho e dos Açores, projetando a nossa identidade muito para além das ilhas.