“Esperamos clareza política, enquadramento regulamentar e visão estratégica”
Hoje 10:28
— Paula Gouveia
Que passos espera a Confraria que o Governo Regional dê no que à produção de cânhamo na Região diz respeito?O
que esperamos do Governo Regional é, antes de mais, clareza política,
enquadramento regulamentar e uma visão estratégica para esta fileira. O
cânhamo industrial é uma cultura agrícola plenamente legal no espaço
europeu, integrada na Política Agrícola Comum, e não faz sentido que
continue sem um instrumento regional específico que lhe dê suporte nos
Açores.Defendemos, por isso, a criação de uma Portaria regional de
apoio ao cultivo do cânhamo, que reconheça esta cultura em igualdade com
as restantes produções agrícolas, assegurando previsibilidade,
incentivos e segurança jurídica aos produtores. É igualmente essencial
investir em campos experimentais e em investigação aplicada, com o
objetivo de adaptar variedades às condições edafoclimáticas da Região e
caminhar, a médio prazo, para uma maior autonomia ao nível das sementes.Existe
ainda uma questão estrutural que não pode ser ignorada: o atual modelo
de licenciamento, centralizado e dependente da DGAV, necessita de ser
revisto. Esta necessidade tornar-se-á ainda mais evidente face à
evolução da Política Agrícola Comum, que aponta para um alargamento das
possibilidades de utilização de toda a planta, sem restrições, incluindo
partes como a flor.Perante este novo enquadramento, e tendo em
conta a tendência europeia para a simplificação e desburocratização do
cultivo de cânhamo industrial, fará todo o sentido que a Região assuma
um papel mais direto na gestão destes processos, através dos seus
próprios órgãos, garantindo maior proximidade, eficiência e adequação à
realidade açoriana.Importa recordar que, desde 2020, o Governo
Regional, através da Secretaria da Agricultura e respetiva Direção
Regional, tem sido parceiro dos nossos eventos e ações formativas. O
diálogo é regular e construtivo, pelo que aguardamos a Portaria com os
apoios para o cânhamo e temos garantida toda a disponibilidade do
Governo para colaborar nos campos experimentais. Que estudos pretende a Confraria que sejam feitos nos Açores?Os
estudos que defendemos são concretos, aplicados e orientados para
resultados. O objetivo é desenvolver, ao longo de vários ciclos
agrícolas, uma ou duas variedades de cânhamo industrial que estejam
efetivamente adaptadas às condições edafoclimáticas dos Açores.Estamos
a falar de ensaios em campo, com avaliação rigorosa do desempenho
agronómico, produtividade, resistência e potencial de utilização. As
áreas de aplicação são claras: produção de biomassa, usos industriais e
construtivos e, eventualmente, alimentação animal, sempre dentro do
enquadramento legal.Os campos experimentais devem funcionar como
infraestruturas científicas permanentes, de pequena escala mas elevada
densidade de informação, garantindo qualidade dos dados, controle de
custos e repetibilidade interanual. Sem este tipo de investimento
estruturado, não será possível consolidar uma fileira sustentável. Quantos produtores tem a Região? E que tipo de cânhamo produzem, para que fim?No
decorrer deste ano, a Região espera contar com seis produtores ativos,
distribuídos pelas ilhas de São Miguel, Terceira e Flores. São quase
todos produtores que iniciaram os seus cultivos em 2024, prosseguiram em
2025, aquilo a que designamos como o “Ano Zero” do cânhamo nos Açores.O
cultivo incide exclusivamente sobre o cânhamo industrial, utilizando
sementes europeias certificadas e respeitando os limites de THC
definidos pela União Europeia. Trata-se de uma cultura com enorme
versatilidade, com potencial para produção de biomassa, aplicações
industriais, construção sustentável e outras utilizações que ainda estão
em fase de desenvolvimento na Região.Importa sublinhar que estamos
perante uma atividade agrícola plenamente legal no espaço europeu. O que
falta neste momento não é legitimidade jurídica — é enquadramento
institucional e apoio estruturado. Que dificuldades enfrentam os produtores dos Açores?As
dificuldades são claras e objetivas. A principal é a ausência de um
enquadramento regional específico que dê previsibilidade e estabilidade à
atividade. Os produtores estão a avançar com base em esforço próprio,
sem um sistema de apoio equivalente ao de outras culturas agrícolas.A
isto soma-se a burocracia excessiva nos processos de licenciamento, que
continuam a ser complexos e desajustados à realidade do setor. Existe
também uma dependência total de sementes certificadas provenientes do
exterior, o que encarece a produção e limita a autonomia dos
agricultores. No essencial, estamos perante um setor com potencial reconhecido, a consolidar nas políticas públicas agrícolas da Região. A
recente operação policial realizada em todo o país e que afetou
proprietários de espaços comerciais de cânhamo mereceu uma posição
pública da Confraria. Porquê?A Confraria divulgou uma Carta
Aberta aos órgãos do governo nacionais e irá proceder à apresentação de
uma queixa na União Europeia porque estamos perante uma questão séria de
conformidade com o Direito da União Europeia e de segurança jurídica
para os operadores económicos.Importa clarificar que não estamos a
falar de produção ilegal, mas sim de empresários que exploram espaços
comerciais licenciados de venda de produtos derivados de cânhamo, muitos
dos quais são legalmente produzidos e colocados no mercado noutros
Estados-Membros da União Europeia.O enquadramento jurídico europeu é
claro. O princípio da livre circulação de mercadorias, consagrado nos
artigos 34.º a 36.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia,
impede que um Estado-Membro restrinja ou proíba a comercialização de
produtos legalmente produzidos noutro Estado-Membro, salvo em
circunstâncias excecionais, devidamente fundamentadas e proporcionais.Para
além disso, o Tribunal de Justiça da União Europeia, no
acórdão Kanavape (processo C-663/18), estabeleceu que o CBD não é um
estupefaciente e que os Estados-Membros não podem impedir a sua livre
circulação quando este é extraído de plantas de cânhamo legalmente
cultivadas.O que esta operação levanta é uma preocupação legítima: a
existência de interpretações restritivas e, por vezes, desalinhadas com
o Direito Europeu, que colocam em causa a atividade de empresários que
operam dentro de cadeias de abastecimento legais no espaço europeu.Isto
não é apenas uma questão setorial — é uma questão de confiança no
mercado interno europeu. Sem segurança jurídica, não há investimento,
não há desenvolvimento económico e não há credibilidade institucional.A
posição da Confraria é, por isso, clara: Portugal deve assegurar o
pleno cumprimento do Direito da União Europeia, garantindo que os
operadores económicos que atuam de boa-fé e dentro da legalidade não são
penalizados por incoerências ou lacunas na aplicação da lei.Quais as dinâmicas previstas num futuro próximo?A
Confraria Internacional Canábis Portugal, em parceria com entidades
regionais, nacionais e internacionais - nomeadamente o Governo Regional
dos Açores, a Neuron Bonus, a Associação Agrícola de São Miguel, a
Câmara Municipal da Ribeira Grande e a Casa do Povo da Maia - está a
co-organizar o 10.º evento de cânhamo e canábis nos Açores, que terá
lugar nos dias 16 e 17 de outubro.Pela primeira vez, a Região acolhe
em simultâneo a CannAzores - Fórum Transatlântico de Cânhamo e Canábis,
na sua VI edição, e a CannaPortugal - Expo Internacional de Cânhamo e
Canábis, na sua IV edição. Esta junção representa um momento estratégico
para os Açores.A importância destes eventos assenta em três pontos
fundamentais: posicionam os Açores no panorama internacional desta
fileira, geram impacto direto na economia local e criam oportunidades
reais para agricultores, empresas e novos projetos. Ao mesmo tempo,
promovem conhecimento, inovação e uma visão informada sobre o cânhamo e a
canábis.Este momento é também particularmente simbólico, uma vez
que estas iniciativas são lideradas por açorianos e desenvolvidas a
partir da Região, demonstrando a capacidade local de criar e projetar
eventos com alcance internacional.Mais do que um evento, trata-se de
uma plataforma de desenvolvimento que pode contribuir de forma concreta
para a diversificação económica e para o futuro sustentável dos Açores.