Especialistas querem prioridade nas empresas à saude mental e semana de 4 dias
16 de mai. de 2023, 08:43
— Lusa/AO Online
Um
estudo feito pelo LABPATS, que hoje apresenta as suas recomendações ao
nível das políticas, organizações, lideranças e profissionais, indica
que quase 80% dos trabalhadores apresentam pelo menos um sintoma de
‘burnout’ e que os trabalhadores da saúde, educação e administração
pública são os de maior risco.Neste grupo
de maior índice de risco estão igualmente os trabalhadores dos setores
dos transportes, área social e comércio e retalho.“O
facto de cerca de 80% dizer que tem pelo menos um dos destes sintomas -
tristeza, irritabilidade, exaustão e cansaço extremo - é algo que nos
preocupa”, disse à Lusa a psicóloga Tânia Gaspar.A
coordenadora do LABPATS lembra que “há vários fatores de risco para o
‘burnout’”: “Por exemplo, pode haver exigência extrema a nível do
esforço físico e psicológico, emocional ou até cognitivo, mas também
[contribuem] as tensões e relações tóxicas com as lideranças e com os
próprios colegas de trabalho”.Refere
igualmente que, para a situação de ‘burnout’ também pode contribuir o
facto de a pessoa sentir que seu trabalho não é reconhecido ou que as
suas competências estão mal aproveitadas.“A
pessoa acaba por ter um desempenho mais debilitado, (…) tende a
trabalhar menos e a fazer mais erros, a ter mais ‘stress’, a criar mais
relações menos positivas também no contexto laboral, afetando o trabalho
de equipa”, disse a responsável, insistindo: “Ter uma pessoa nesta
situação também não é positivo para a própria organização e há aqui um
trabalho de prevenção a fazer”.Os
investigadores apontam igualmente a necessidade de as empresas
desenvolverem estratégias de gestão de conflitos e chamarem a atenção
para a importância de trabalhar a questão das lideranças.Para
Tânia Gaspar, as chefias intermédias são nas empresas um grupo em
grande risco de ‘stress’ e devem ter uma intervenção específica, como o
‘coaching de liderança’, para garantir um ambiente de trabalho saudável.A
psicóloga clínica lembrou que as lideranças estão como que “numa
posição de sanduíche”: “Estão em grande pressão pois acabam por estar
pressionadas pela administração para cumprir os objetivos (…) e pelas
próprias características dos profissionais que são difíceis de gerir”.“Se
eu tivesse de definir um ponto para intervir [nas empresas] era nas
lideranças. Porque além de serem profissionais que também têm que ter
bem-estar [no trabalho] eles têm uma grande influência no bem-estar dos
outros”, considerou.Para os especialistas,
a aplicação da semana de quatro dias, sem perda de remuneração,
ajudaria a conciliar a vida profissional e familiar e a reter as novas
gerações, para quem “o trabalho não é tudo na vida”.Tânia
Gaspar considera que as empresas têm de mudar o seu paradigma "se
querem reter os profissionais", explicando que “as novas gerações têm
outra atitude face ao trabalho e valorizam realmente muito o seu
bem-estar”: “O trabalho é uma área da sua vida, mas não é a área da sua
vida”.Quanto à semana de quatro dias, a
investigadora sublinha que só funciona com algumas condições: “Que não
haja decréscimo salarial, ou seja, que a pessoa não fique a receber
menos, e que a pessoa não tenha que fazer o trabalho de todos os dias
naqueles quatro dias, senão acaba por ficar completamente
sobrecarregada”.Nas recomendações do
LABPATS são igualmente sugeridas mudanças na legislação sobre saúde
ocupacional, integrando nas equipas um psicólogo do trabalho/sociólogo
do trabalho, para fortalecer a relevância da saúde mental e
psicossocial, uma das dimensões que apresenta maior risco.