Especialistas pedem mudanças na comunicação do governo e DGS sobre a pandemia
Covid-19
21 de jan. de 2021, 17:44
— Lusa/AO Online
Perante
os máximos sistemáticos de casos, internamentos e óbitos em 2021, a
comunicação sobre a crise sanitária passou, essencialmente, a ser feita
nas últimas semanas pela ministra da Saúde, Marta Temido, e pelo
primeiro-ministro, António Costa. Simultaneamente, no pior ‘pico’ desde o
início da pandemia em março de 2020, a última conferência de imprensa
da DGS foi em 05 de janeiro, depois de terem sido diárias durante a
primeira vaga.Rui Gaspar, professor na
Universidade Católica e psicólogo com especialidade em comunicação de
crise, que tem igualmente prestado consultoria à DGS, disse à Lusa que
este ‘interregno’ terá na base “uma reformulação das mensagens”, mas
reconhece também que o aumento da “comunicação do governo, de alguma
forma, se sobrepõe a qualquer mensagem das autoridades de saúde” nesta
fase.“Deveríamos ter dois tipos
complementares de comunicação, uma não deveria anular a outra. A
comunicação da DGS deveria ser mais sobre como as pessoas devem manter
os seus comportamentos”, realça, numa visão sustentada também por
Margarida Pinto da Fonseca, gestora da consultora de comunicação S
Consulting.“As conferências da DGS seriam
muito importantes agora, mas se assumissem outro modelo. Estamos
anestesiados com números”, disse à Lusa.Para
a responsável desta empresa especializada na área da comunicação em
saúde, as conferências de imprensa já têm um impacto pouco expressivo
nos comportamentos das pessoas neste momento da pandemia, apontando o
foco para “as mensagens que chegam de quem está na linha da frente” do
combate à doença.“Os meios de comunicação
social convencionais e as mensagens de apelo dos dirigentes ‘bateram na
parede’. Não se pode dizer que os portugueses estejam mal informados, a
informação está por todo o lado, os números são claros, e mesmo quem
está sensibilizado para a dimensão deste problema incumpriu e continua a
incumprir”, observa Margarida Pinto da Fonseca.Andreia
Garcia, diretora da consultora de comunicação em saúde Miligrama e
professora na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, alerta
que “as mensagens continuam a ser as mesmas de há uns meses” e que é
urgente proceder a uma mudança na comunicação sobre a pandemia.“Já
todos sabemos o que fazer para evitar o contágio. Temos, agora, de
incentivar as pessoas a aprovar esses comportamentos, a praticá-los e a
recomendar que outros façam o mesmo. A estratégia de comunicação deve
passar pela mudança das mensagens transmitidas. Mais do que incutir o
medo ou a culpa, temos de reforçar a esperança e a união”, defende.No
entanto, para se chegar a essa mudança e a efeitos visíveis no
comportamento dos cidadãos, Rui Gaspar assevera que é crucial não olhar
apenas pela visão dos epidemiologistas.“A
forma como os especialistas avaliam o risco não é a mesma das pessoas
comuns. Enquanto os técnicos se baseiam nos critérios de transmissão ou
letalidade da doença, as pessoas concentram-se no esforço que estão a
ter, no perigo económico e na incerteza”, nota, acrescentando: “Temos de
tentar que haja um ponto comum de acordo entre especialistas e
cidadãos, de ter uma melhor compreensão das pessoas e não assumir logo à
partida que são culpadas do que está a acontecer. Antes de
culpabilizar, temos de compreender”.Margarida
Pinto da Fonseca destaca a necessidade de compatibilizar os alertas à
população com uma palavra de confiança e responsabilização, ao
considerar que “a culpabilidade ou os efeitos das nossas decisões” não
são da exclusiva responsabilidade de quem toma decisões.“Estaríamos
a dizer que precisamos de um estado paternalista que nos dita o que
deveríamos fazer, quando estamos mais do que aptos a fazê-lo de forma
consciente, responsável e autónoma. Esperamos que o nosso governo nos
diga a verdade, nos explique a intenção e a origem das decisões, nos
ajude a orientar a nossa conduta, mas não podemos esperar que faça por
nós o que todos conseguimos fazer sozinhos: proteger-nos uns aos
outros”, disse.Salientando a premência de
“conquistar e manter a confiança”, Andreia Garcia não deixa de criticar
os últimos meses de “mensagens erráticas provenientes dos governantes”,
como o “baixar a guarda na época natalícia” ou o “excesso de confiança”
gerado com a chegada da vacina e lamenta também a “incerteza” em torno
das medidas anunciadas para o confinamento e a contradição entre o dever
de recolhimento e as imagens de “aglomerados de pessoas a participar
nas iniciativas da campanha” para as eleições presidenciais. Rui
Gaspar – que fez parte do grupo de trabalho responsável pelo documento
da DGS ‘Princípios orientadores para comunicação de riscos e crise
baseados na perceção de risco’ – diz que para rebater o sentimento de
dessensibilização, é necessário “deixar de comunicar números e comunicar
pessoas”, acentuando os efeitos das mortes na comunidade.Andreia
Garcia partilha da ideia de “humanizar a comunicação” em torno da
pandemia. “Dizer a um jovem que se não se proteger pode contrair a
covid-19 não tem o mesmo efeito que dizer-lhe que se apanhar a doença
pode infetar a sua mãe e que esta pode morrer. Mais do que a
responsabilização individual é necessário apelar à solidariedade
social”, afirma. “O que pode ajudar em
termos de eficácia de comunicação é a segmentação das mensagens e dos
canais. Assistimos a um exemplo disso no direto no Instagram de Bruno
Nogueira [artista] em que convidou o médico intensivista Gustavo Carona,
do Hospital Pedro Hispano. Estiveram quase 90.000 pessoas a ouvir uma
mensagem que, tenho a certeza, mudou mais comportamentos do que muitas
conferências de imprensa, junto de um ‘target’ a que os políticos ou os
telejornais não costumam chegar”, conclui Margarida Pinto da Fonseca.