Especialista em Saúde Pública defende que uso de máscara deve passar a depender do contexto
Covid-19
20 de ago. de 2021, 08:41
— Lusa/AO Online
Ricardo
Mexia disse à Lusa que a lei que impõe a obrigatoriedade do uso de
máscara até 12 de setembro deve cair perante os 70% de cidadãos
vacinados, mas defendeu que a utilização de máscara deve “depender do
contexto” em que as pessoas se encontrem e que, na eventualidade de uma
maior aglomeração, continua a ser recomendável a adoção deste
equipamento de proteção individual.“Num
contexto de baixa densidade, em que as pessoas conseguem manter as
distâncias, talvez a máscara no exterior possa não ser imprescindível.
Agora, num contexto de maior concentração, a máscara continua a fazer
sentido, continua a permitir reduzir a disseminação se houver
proximidade. Sabemos que no exterior isso é sempre menor do que no
interior, mas, havendo proximidade, pode continuar a fazer sentido”,
disse. O
especialista em saúde pública notou que a obrigatoriedade “é mais uma
questão normativo-jurídica e não tanto uma questão técnica” e enfatizou
que a máscara “não impede” as pessoas de realizarem um grande conjunto
de atividades. “Não há propriamente uma grande limitação que nos é
imposta; permite-nos estar nos sítios e participar nas atividades,
reduzindo o risco de transmissão da doença”, frisou.Confrontado
com a aproximação do período de outono-inverno e a possibilidade de
levantamento da obrigação do uso de máscara, Ricardo Mexia recordou que
“houve vários países que, independentemente da época, acabaram por
retomar a utilização da máscara”, devido a um aumento do número de casos
de infeção com o coronavírus SARS-CoV-2, mas disse preferir apontar
para a necessidade de repensar o paradigma de monitorização da covid-19.“Em
breve vamos ter de mudar a forma de abordar a doença. Até agora – fruto
da menor cobertura vacinal – estávamos muito apostados em identificar
todos os casos de infeção, mas, eventualmente, vamos ter de evoluir para
nos preocuparmos mais com os casos de doença”, disse, considerando que
“a abordagem tem de ser integrada, não é com medidas avulsas que a coisa
se pode gerir. Há um conjunto de questões que têm de ser tidas em
conta”.O
médico de saúde pública assinalou que Portugal não tem condições para
encetar uma “abordagem de ‘doença zero’”, como tem seguido a Nova
Zelândia, e, por isso, defendeu que “as pessoas mais vulneráveis e mais
idosas possam beneficiar da utilização da máscara”, bem como aquelas que
demonstram estar sintomáticas e que, por força dessa condição, têm
maior possibilidade de transmitir a doença.“Vamos
ter de lidar com a doença tão bem como for possível. E isso implica
enquadrar as questões e retomarmos aquilo que é um conjunto de
atividades que não podemos ter ‘ad aeternum’ suspensas. Essas medidas
têm de fazer sentido de forma concertada para a abordagem do problema”,
sustentou.Paralelamente,
Ricardo Mexia identificou o regresso de alguma incidência de casos mais
graves e de mortalidade nos grupos etários mais avançados e deixou um
alerta para a importância de estudar as causas deste fenómeno nesta
fase.“Temos
de perceber o que é que se está a passar, porque é que isso está a
acontecer, e se é um problema de diminuição da imunidade devido ao tempo
que já passou desde que foram vacinados ou se tem a ver com uma menor
resposta do ponto de vista das variantes”, disse.Quanto
à possível necessidade de administração de uma terceira dose de vacina
num futuro próximo - que a ministra da Saúde, Marta Temido, fez hoje
depender da orientação que a Agência Europeia do Medicamento irá dar -, o
presidente da ANMSP destacou a importância de recolher mais dados dos
estudos em curso sobre a resposta imunitária ao longo do tempo, embora
tenha admitido esse cenário como provável.“Acredito
que eventualmente vamos chegar a essa fase de fazer sentido reforçar a
vacina. Não sei exatamente quando é que isso deverá ocorrer e é isso que
é preciso avaliar para depois se tomar a decisão”.