Especialista alerta para mortalidade do cancro do ovário
8 de mai. de 2023, 08:51
— Lusa/AO Online
Em
declarações à agência Lusa a propósito do lançamento da campanha “Eu
preferia saber… que a mutação BRCA pode mudar a minha história”, que é
lançada hoje, Dia Mundial do Cancro do Ovário, o especialista disse que
para a deteção em caso avançado contribuem os sintomas inespecíficos da
doença e a quantidade de mulheres sem acesso a médico de família.Esta falta de seguimento nos cuidados primários de saúde compromete o acompanhamento e as avaliações de rotina, referiu.O
presidente da Secção Portuguesa de Ginecologia Oncológica (SPGO) da SPG
lembrou que o cancro do ovário, nas fases iniciais, “não tem nenhuma
sintomatologia específica”,e por isso advertiu que é preciso estar
atento, não só as mulheres, mas os próprios médicos.“São
sintomas tão inespecíficos que é importante estar profundamente atento à
frequência e intensidade de alguns sinais e sintomas que, quando
aparecem e persistem no tempo, ou se intensificam por alguma razão, têm
que ser avaliados”, considerou.Deu ainda
como exemplo outros cancros, como o da mama ou do colo do útero, que têm
rastreio disponível, ao contrário do cancro do ovário, para frisar a
importância de a mulher estar atenta a queixas como “a distensão
abdominal ou alguma dor ou incómodo abdominal” ou “algum enfartamento”
após as refeições.“Isto é tão frequente
que se desvaloriza”, reconhece o especialista, chamando a atenção para a
persistência ou alterações nestas queixas: “Se as queixas persistem
para além de duas/três semanas, se a intensidade aumentou ou se
modificou, nesta altura o melhor é ser avaliado”.Henrique
Nabais comparou, por exemplo, com o cancro no endométrio, em que também
não há rastreio, mas há sintomas: “não temos nenhum teste de rastreio,
mas 80% dos cancros do endométrio dão sintoma precoce, que é a
hemorragia vaginal anómala".“Se as
mulheres estiverem informadas, os médicos estiverem informados,
geralmente fazemos diagnósticos precoces [no cancro do endométrio]. No
ovário, nem uma coisa nem outra”, lamentou.A
propósito da campanha lançada hoje, que envolve a mutação genética
(BRCA) e a sua influência no aparecimento de cancro do ovário, Henrique
Nabais lembrou que em 20 a 25% a mutação genética está associada ao
cancro do ovário.Apesar de ser
“relativamente raro” – há cerca de 500 casos por ano -, o especialista
sublinhou: “o drama é que morrem muitas mulheres. São mais de 400 por
ano (...), o que é muito”.Sendo um cancro
tão raro, não se pode fazer o estudo genético a toda a população, tendo
em conta os custos que implicaria, lembra o ginecologista, acrescentando
que "é preciso ser criterioso com os casos em que são pedidos esses
testes”.“Na maioria das mulheres com
cancro do ovário, nós fazemos o estudo genético. Há famílias que têm um
conjunto de cancros, seja pelo tipo de cancro, seja pela idade em que
aparecem, que é sugestivo de haver uma mutação e aí fazemos o estudo.
Não só porque o conhecimento da mutação é determinante e modifica a
conduta terapêutica, mas porque, (…) se a mulher doente teve a mutação,
temos de fazer o estudo dos familiares mais próximos, porque se também
tiverem a mutação esta é identificada”.Identificando
a mutação, sendo a BCRA, nas mulheres entre os 35 e os 40 anos, pode
optar-se pelas cirurgias redutoras de risco (com remoção do ovário),
baixando o risco entre 70 a 80% de ter cancro. As que não querem fazer
cirurgia são acompanhadas com ecografia e análise ao marcador tumoral
respetivo a cada seis meses.Henrique Nabais chamou igualmente a atenção para importância de estes casos serem tratados por centros de referência.“Não é possível tratar bem uma mulher com cancro do ovário num centro que trata um caso ou dois por ano”, indicou.