Espanha vai desclassificar documentos de golpe falhado de fevereiro de 1981
Hoje 12:33
— Lusa/AO Online
Em Espanha,
como têm denunciado organismos internacionais e organizações
não-governamentais (ONG) de defesa de direitos humanos como a Amnistia
Internacional, mantém-se em vigor uma lei de 1968, ainda da ditadura do
general Francisco Franco, sobre "segredos oficiais", ao abrigo da qual
permanecem secretos os documentos da época do regime ditatorial
(iniciado em 1939) e da transição para a democracia, que arrancou em
novembro de 1975.O atual Governo enviou ao
parlamento, em julho do ano passado, uma proposta para uma nova "lei de
segredos oficiais", que prevê prazos para desclassificação automática
de documentos, sem que essa decisão seja, como agora, uma prerrogativa
do Conselho de Ministros e avulsa, tomada de forma arbitrária.A
proposta, que está desde então congelada no parlamento, onde o Governo
depende de uma geringonça de oito partidos, estabelece que os documentos classificados passam a públicos, nos prazos mais longos, após 45 anos,
que poderão ser prolongados uma única vez por mais 15 em casos de "altos
segredos".É precisamente o prazo de 45
anos previsto nessa proposta que hoje se cumpre em relação à tentativa
de golpe de Estado de 1981 (conhecido em Espanha como 23F).O
Governo anunciou a desclassificação dos documentos na reunião do
Conselho de Ministros de terça-feira, usando assim a prerrogativa que
lhe dá a lei franquista de 1968."A memória
não pode estar fechada à chave. Amanhã desclassificaremos os documentos
do 23F para saldar uma dívida com os cidadãos. As democracias devem
conhecer o seu passado para construírem um futuro mais livre", escreveu
Pedro Sánchez, na rede social X.A
publicação é acompanhada por um vídeo com uma intervenção do escritor
Javier Cercas, em novembro do ano passado, na apresentação no parlamento
espanhol da série "Anatomia de um instante", baseada no livro com o
mesmo nome deste autor, em que relata a tentativa de golpe de 1981.Nesse
dia, dirigindo-se a Sánchez, que estava presenta na sala, Javier Cercas
pediu ao primeiro-ministro para "desclassificar tudo" o que estiver nas
mãos do Governo relativamente ao golpe falhado, sublinhando os inúmeros
rumores, mentiras e especulações em redor deste episódio da história
recente espanhola.Fontes do Governo
espanhol disseram à Lusa que a desclassificação dos documentos entrará
em vigor na quarta-feira e que serão publicados no 'site' da Moncloa, a
presidência do executivo.O golpe falhado
de 23 de fevereiro de 1981 é considerado um dos episódios mais marcantes
e determinantes da transição esanhola da ditadura franquista para a
democracia.Naquele dia, o então
tenente-coronel Antonio Tejero Molina da Guardia Civil (correspondente à
GNR portuguesa), que chefiava cerca de 200 homens armados, interrompe a
sessão parlamentar durante a qual devia ter sido investido
primeiro-ministro Leopoldo Calvo-Sotelo, na sequência da demissão do
então chefe do Governo, Adoldo Suárez.Seguiram-se
17 horas de sequestro dentro do parlamento dos 350 deputados e de todos
os membros do Governo, assim como de funcionários e jornalistas, entre
outras pessoas, até à rendição de Tejado, por volta do meio-dia de 24 de
fevereiro.Para o falhanço do golpe foi
considerado determinante o curto discurso que o então Rei Juan Carlos I
fez pela televisão durante a madrugada, em que defendeu a ordem
constitucional e a democracia.O 23F
transformou Juan Carlos I num dos heróis da transição espanhola e
garante da democracia em Espanha, mas posteriormente foi questionado o
verdadeiro papel que teve neste episódio por diversos protagonistas,
incluindo o próprio Tejado, que disse ter agido convencido de que atuava
com conhecimento e aval do monarca e foi usado pelo general Alfonso
Armada, antigo tutor do rei e chefe da Casa Real.Alfonso
Armada pretendia chefiar um governo de unidade saído do golpe de
Estado, algo que, na versão de Tejero, o general tinha acordado com Juan
Carlos I.O monarca, que abdicou em 2014,
deu pela primeira vez publicamente a própria versão do 23F no livro de
memórias que publicou no ano passado, onde garante ter sido traído por
Alfonso Armada.O que a justiça espanhola
deu como provado é que o golpe tinha sido orquestrado por dois generais e
por Tejero, com Alfonso Armada a negar sempre ter sido o cérebro da
operação.