Escritor explora “O Mistério das Valsas Portuguesas” que liga Portugal à Terra Nova
23 de ago. de 2020, 10:48
— AO Online/ Lusa
A canção “Valsas Portuguesas” surgiu-lhe pela frente numa altura em que procurava as suas próprias raízes, e assim, partiu em busca da ligação a Portugal nesta canção tão popular na Terra Nova, Canadá.Esse elo, percebeu o escritor, não seria assim tão óbvio, por isso decidiu contá-lo no livro infantil “The Mistery of the Portuguese Waltzes” (“O Mistério das Valsas Portuguesas”, em tradução livre), que chegará, em breve, às livrarias portuguesas, pelas mãos da Poética Edições.Richard Simas é descendente de terceira geração de uma família que, originalmente, foi do Pico até à Califórnia, à boleia da pesca baleeira.Nunca contactou muito com a herança cultural portuguesa, devido à “versão da costa oeste” da imigração portuguesa, que é muito diferente da que se encontra na costa leste americana, onde a cultura portuguesa é fortemente celebrada, explica à Lusa.“Na ordem socioeconómica, havia os suíço-italianos no topo, ingleses e irlandeses a seguir, depois os portugueses e depois os mexicanos. Os portugueses estavam no fundo da ordem social, por isso não era vantajoso, especialmente porque a minha mãe não era portuguesa, cultivar essa ideia”, esclarece o escritor.As referências que tinha eram vagas: “Por exemplo, quando íamos a um casamento, ou um aniversário, íamos a um clube que se chamava D.E.S. Ninguém me explicou o que isso significava. Eu achava que era um clube privado pertencia à nossa família e as nossos amigos. Tínhamos lá orquestras, música, toda a gente dançava. Foi só mais tarde que percebi que era o Divino Espírito Santo”.Foi em Montreal, para onde se mudou “por causa da arte, do teatro e da cultura francesa”, que acabou por contactar mais com a cultura portuguesa, já que acabou por dirigir, durante 14 anos, um teatro que ficava “no coração do bairro português”.“Ia às padarias, cafés e tinha a sensação de que estava, de alguma forma, relacionado com aquelas pessoas, mas ficava por aí”.Em 2007, decidiu dedicar-se à escrita a tempo inteiro e aprender a tocar clarinete. Como via “as procissões com as filarmónicas portuguesas”, abordou-os, “mas a ideia era escrever uma história, não era tocar com eles”. Queria “ir ao encontro daquela música muito atrativa, mas também muito antiquada”.“Eram as festas do Santo Cristo e as festas do Espírito Santo – toda a gente nas ruas. Tinha algo que imediatamente me disse alguma coisa”, afirma.Embora admita que, na filarmónica, encontrou “uma conexão emocional muito grande, imediatamente”, acabaria por se cansar de tocar “sempre a mesma coisa, sempre da mesma maneira”.À falta de evolução musical, acrescia o facto de ser “americano, e há sempre um ponto em que não se pode pertencer completamente àquela família”, confessa.Ainda assim, aquele contacto foi importante, e começou a aprender português, para se aproximar de Portugal, também através da literatura.As “Valsas Portuguesas” apareceram-lhe em 2016, quando se juntou a uma banda judia e conheceu um saxofonista de São João, na ilha canadiana da Terra Nova, que lhe apresentou ao popular tema ‘folk’.“Como escrevo artigos sobre música e cultura pensei que podia ser um artigo. Era o assunto perfeito para mim”, conta.A canção foi composta pelo acordeonista Art Stoyles, e faz parte de um álbum “em que seis canções estão identificadas como canções tradicionais portuguesas”.“Cinco delas soam exatamente a canções de folclore português, mas a sexta, as ‘Valsas Portuguesas’, não soa nada como uma canção portuguesa”, explica o autor.Foi esse mistério que o levou, primeiro, até à Terra Nova e, mais tarde, a Portugal, para descobrir a origem desta música.A pista estava na dedicatória – ao capitão Manuel da Silva.Richard, que não sabia nada acerca da campanha portuguesa de pesca do bacalhau, cedo se dedicou a estudar o tema. Também cedo se apercebeu que a busca não seria fácil, já que Manuel da Silva é um nome muito comum. Felizmente, capitães com esse nome, havia só um.O homem em questão já tinha morrido, mas conseguiu entrar em contacto com familiares, que confirmaram que o capitão tocava música.No entanto, os familiares “não conheciam a música, nunca tinham ouvido falar de Art Stoyles” e adiantaram que o capitão tocava “guitarra e não acordeão”.Depois de falar também “com acordeonistas, músicos e musicólogos” apercebeu-se que “ninguém em Portugal sabia nada sobre esta canção”.Também do lado canadiano da história as incongruências eram muitas.“Fiz entrevistas e pesquisa. Estava a tentar juntar as partes, basicamente, através de palavras. Cheguei a um ponto em que pensei: ‘não tenho a certeza do que é verdade ou não’”, explica.“Há emoção naquela música, não há dúvida de que há uma emoção terna de anseio, a que se pode chamar saudade ou outras coisas. É dolorosa e também uma celebração ao mesmo tempo. Gosto de deixar a coisa por aí. Se conseguisse descobrir mais, gostava de descobrir mais”, afirma.Não está desiludido por não ter encontrado uma resposta definitiva, admite: “Ter questões é um pretexto para aprender coisas. […] Encontrar a origem é um trabalho para académicos. E é um trabalho válido e importante, mas um escritor, que trabalha com ficção, está sempre à procura do porquê”, conclui.