O romance “Alice” já vai na
segunda edição. Estava a contar com uma adesão tão significativa
de leitores?
Realmente “Alice” – atendendo a
que a nossa terra é um meio pequeno e que os hábitos de leitura,
dum modo geral, são escassos e pelo que parece estão a diminuir
cada vez mais –, teve algum sucesso que ultrapassou as minhas
expectativas, muito embora eu tivesse o pressentimento, desde sempre,
que iria cativar a atenção dos leitores. Trata-se, sobretudo, do
“ser”, “estar” ou “ter” genuinamente açorianos. Havia
alguma curiosidade acerca do livro, talvez porque o que o antecedeu –
Lunetas e Outras Solidões –, uma pequena coletânea de contos de
índole meramente açoriana –, foi uma porta que felizmente se
abriu para este livro. Devo também muito deste pequeno sucesso de
vendas à bondade dos meus amigos que o foram recomendando, que
formularam críticas positivas nas redes sociais.
Qual é o segredo de “Alice” para
nos prender à leitura?
Ninguém é bom advogado em causa
própria. Não posso, não devo, nem quero, de forma alguma “gabar
a noiva”. Eu gosto muito do livro. Acho que me saiu bem. Fiquei
satisfeito comigo neste trabalho. Quando o escrevi fui rebuscar na
minha memória vivências de há cinquenta anos e mais. Revivi
pessoas e lugares. Tiques. Costumes. Falares. Preconceitos. De vez em
quando dou por mim a reler algum capítulo ou algum parágrafo e…
nada lhe tirava ou acrescentava. É o que eu sinto. Foi o que eu
consegui. Obrigou-me a muita pesquisa, embora possa parecer que tudo
saiu ao “correr da pena”. Escrever é difícil. Dá muito
trabalho escrever e quando se escreve a pensar nos leitores os
cuidados são redobrados. É um romance de ficção. Os personagens
não são reais, nem a história o é, mas tem muito que se pode
“encaixar” nas mentalidades, tipos e usos daquela época. É
essencialmente uma história de amor que… acaba bem, apesar de os
personagens terem vivenciado caminhos difíceis e tristes.
Só mesmo os leitores poderiam
responder acertadamente à questão que me coloca. Contudo, devo
referir que aquilo que os prendeu à leitura, de acordo com a maioria
das opiniões que expressaram, foi o amor e ternura que estão
patentes em todo o livro. Para muitos, os mais novos, a surpresa de
se depararem com formas de manifestação de amor que lhes era
desconhecido, do tempo dos seus pais ou dos seus avós. O livro
reporta-se ao tempo em que ainda se escreviam cartas de amor. A
aproximação era difícil e muito formal, sujeita ao escrutínio da
sociedade. Hoje estamos na era dos telemóveis, do computador. Com o
Messenger ou com SMS é diferente. Hoje vai-se diretamente aos
assuntos, descomplexadamente. As abordagens agora são fáceis. Para
os antigos, os da minha geração, o livro é um motivo para
revisitar as vivências daquela altura. E é talvez por aí que o
livro prende os leitores – o AMOR e as SAUDADES DO PASSADO. É um
livro genuinamente açoriano, passado em S. Jorge (o primeiro
romance, creio, que se passa em S. Jorge), Faial e Terceira.
As vivências açorianas são um filão
inesgotável para a escrita?
Sim, as vivências açorianas são um
filão inesgotável para a escrita. Acho até que são uma mais-valia
riquíssima e pouco explorada. Temos esta grandiosidade do mar e …
tanto que se pode falar do mar, temos a beleza inenarrável destas
nossas ilhas. Cenários belíssimos. Estamos num cantinho do mundo
que ainda está a ser descoberto. Temos a bondade deste povo que é,
a meu ver, única. Pouco se escreve por cá e existem excelentes
escritores. Pode-se escrever nos Açores sobre os Açores e os
sentimentos do povo dos Açores. As temáticas são múltiplas e
ricas. Julgo que existem muitos talentos escondidos, mas manietados
pelas dificuldades que se colocam a quem tenta escrever um livro. Os
custos de edição são elevadíssimos. As editoras têm apoios do
governo, mas os escritores não. Tenta-se colocar um livro no mercado
e as grandes superfícies ou até algumas livrarias da região nem se
dão ao trabalho de responder a um mail que lhes enviámos com a
nossa proposta. Nem se interessam saber se a obra é boa ou má,
simplesmente não respondem. Tem acontecido comigo. E sei que com
outros também. Não há interesse, ou existe pouco, em promover a
literatura açoriana, é o que é!
Sei que muitos tentam, mas desanimam.
Depois ninguém pense que escrever traz lucro aqui na Região. As
margens de lucro para o autor são mínimas. Ser escritor nos Açores
é ser um pouco aventureiro. É preciso ter muita persistência. A
minha editora faz um bom trabalho de produção gráfica, mas as
vendas estiveram e estão quase todas a meu cargo, o que provoca
também algum desgaste. Todavia aconselho quequem tenha um bom livro
em carteira avance com ele.
Os leitores açorianos são sensíveis
às próprias especificidades do seu arquipélago?
Sim, são! Estão ávidos de temas que
se debrucem sobre as nossas ilhas, o nosso povo. Ser-se ilhéu e
açoriano é também ter-se um sentimento de estirpe, fiel à sua
terra e às suas origens. Ama-se as pessoas, a terra e o mar. Saímos
de cá, mas ansiamos pela hora de voltar à terra que nos viu nascer
e crescer. Toda a natureza nos envolve e acalenta. Toda alma do povo
do Pico está expressa na obra de Dias de Melo. O Faial na de
Vitorino Nemésio, etc … Que me perdoem os demais, mas enumerá-los
aqui seria um rol muito extenso. Mesmo os livros de história da
região (S. Jorge) como os que tem publicado Frederico Maciel,
cativam muito os açorianos e não só. Os açorianos são orgulhosos
da sua terra. Os que nos visitam compreendem esse orgulho e… quase
sempre voltam. Alguma coisa de mágico tem os Açores. A nossa
sensibilidade às especificidades das ilhas, o nosso orgulho, tem
razão de ser.
Já tem um novo projeto literário na
forja?
Ando “às voltas” com um novo
projeto. Já tenho uma boa parte escrita. Obriga-me, obviamente, a
muita reflexão e pesquisa. Levantando uma pontinha do véu, posso
dizer que abordo novamente a temática Açores, a guerra colonial e
Angola, enfim, fundamenta-se em vivências que tive, presenciei ou
ouvi, de algum modo, mas que vou ficcionar. Ninguém pode escrever
sobre o que não conhece, não é verdade? Alguém escreveu: “se
Hemingway não tivesse pescado no Caribe, nunca teria escrito O Velho
e o Mar”, o que é bem verdade. Escrever também exige que se tenha
vivenciado.
Está a caminho dos setenta anos.
Espera escrever até quando?
É verdade, meu amigo! Estou à beira
dos setenta! Foram setenta anos com tempos bons e maus. As memórias
são muitas.
Eu, se me permite, reformulava a sua
pergunta: “Espera “ler” até quando”?
Gosto muito de ler. Leio bastante e
espero ler ainda por mais alguns anos com “tino” para entender o
que leio. É Uma das coisas que desejo muito.
Agora respondendo à sua pergunta: vou
tentar acabar este projeto e depois logo se verá. Já não me resta
muito tempo para fazer projetos a longo prazo, tenho bem essa noção.
Veremos. Entretanto vou lendo e…. escrevendo o que puder e souber,
sem prazos nem compromissos. É essa também uma vantagem de se
chegar a esta idade - alimentamos em nós um sentimento poderoso de
liberdade.