Escola primária onde estudou Variações vai ser centro interpretativo de tributo ao cantor
1 de mar. de 2023, 12:05
— Jorge Afonso Silva /Lusa/AO Online
“Tínhamos
este edifício em estado de degradação, com o decorrer dos anos, da
humidade, e queríamos dar uma finalidade. E surgiu a ideia de que fosse
criado um centro interpretativo. Arrancámos com uma candidatura, tivémos
sorte e foi contemplada”, explica à agência Lusa o presidente da Junta
de Freguesia de Fiscal, terra onde António Joaquim Rodrigues Ribeiro,
nome de batismo, nasceu a 03 de dezembro de 1944 e foi sepultado em
1984.Augusto Macedo conta que na escola
onde Variações fez todo o ensino primário, propriedade da junta que
preside, vai ser recriada uma barbearia, em alusão à profissão
(barbeiro) que o cantor abraçou após rumar a Lisboa, sublinhando que o
espaço de tributo ao “filho da terra” vai ter também fotografias e
roupas, estas cedidas por uma das irmãs.“Além
da recriação da barbearia, teremos expostas fotografias e alguns trajes
dele. Pensamos também passar o filme que foi feito dele, ter sempre
músicas a decorrer e haver um espaço onde poderá haver formação musical.
Temos parceria com duas escolas de música do concelho e a ideia é que
elas possam ministrar o ensino da música. Que este espaço não seja só
expositivo, mas também de ensino”, acrescenta a secretária da junta e
uma das impulsionadoras do projeto.Liliana
Brandão explica que a ideia é que uma das escolas de música esteja
“mais na parte formativa”, enquanto a outra promova a animação musical,
“fazendo miniconcertos, muito familiares”, de tributo ao ‘ícone’
musical, que deixou dois álbuns – “Anjo da Guarda” (1983) e “Dar &
Receber” (1984) – que marcaram indelevelmente a história da música em
Portugal.“Quem sabe, alguns dos cantores
que estão neste momento a usar música do Variações na sua interpretação,
possam replicar cá... Era algo que idealizávamos e seria uma felicidade
para nós tê-los cá a replicar”, desafia a autarca.Liliana
Brandão diz que a empreitada, de cerca de 160 mil euros - 128 mil euros
virão da candidatura recentemente aprovada no âmbito do Programa de
Desenvolvimento Rural | Renovação de Aldeias -, “tem de arrancar o mais
rápido possível”, pois tem de estar concluída “num prazo máximo de dois
anos, ou até mais cedo”.A família de
António Variações, na voz de um dos irmãos, Carolino Ribeiro, mostra-se
agradada com a iniciativa da junta de Fiscal.“Aceitamos
bem e achamos que é um contributo merecido para a freguesia, para o
concelho e, principalmente, para o António, que realmente merece todas
as homenagens que são feitas em nome dele, e ficamos muito agradados com
isso”, declarou à Lusa Carolino Ribeiro.O
carpinteiro de profissão, hoje com 64 anos, dá conta de que a família e
os fãs também vão contribuir para enriquecer o futuro espaço de
homenagem e de tributo ao irmão, que morreu a 13 de junho de 1984, em
Lisboa, cidade para onde foi em 1957, com 13 anos.“Temos
alguma coisa em nossa posse, de vários irmãos, e vamos reunir todas as
peças com mais interesse – acho que são todas – para pôr aqui no museu
que vai ser feito em nome do António. Vamos ter de participar. E há fãs
que querem, ou fazer doação de objetos, e outros, a título de
empréstimo, provisoriamente, para ter aí e para as pessoas verem o que o
António tinha”, revela Carolino Ribeiro.Junto
ao busto de António Variações, que também tem na freguesia uma avenida
com o seu nome, Carolino Ribeiro destaca a originalidade como a
principal característica do irmão.“Mas
originalidade em termos de música e de apresentação. E teimoso também.
Mas era uma joia de pessoa, muito amigo da família, principalmente da
mãe, do pai também - mas o pai tinha falecido há muitos anos -, e dos
irmãos, que ajudou muito. Chamava-os à atenção de várias coisas do que
era a vida. Ele já sabia muito o que era a vida e avisava-nos muito. Por
incrível que pareça, apesar da sua excentricidade, ele era muito
reservado. Dificilmente falava com alguém cá da terra. Era só mesmo
dedicado à família”, partilha Carolino Ribeiro.Carolino
Ribeiro conta que a mãe “teve 12 filhos, criou 10, com muitas
dificuldades, mas levou a água ao seu moinho”, uma vez que nunca os
deixou passar fome e deu-lhes educação, acrescentando que os irmãos mais
velhos, incluindo “o irmão António”, saíram de casa com “12 ou 13
anos, pois a necessidade era muita”.Quanto às memórias que guarda do irmão, Carolino Ribeiro conta que ele vinha à terra sobretudo no Verão, no Natal e na Páscoa. “Ele
fazia questão de vir na Páscoa e no Natal, principalmente. Punha-nos aí
a todos a trabalhar no quintal, a ajudar os pais, e a cantarolar,
sempre, no monte ao pé da casa. E era uma festa com ele, sempre. Quando
estava mal disposto, era um bocado complicado, porque tinha a maneira
dele. Mas foi sempre um bom irmão, muito carinhoso connosco”, afirma
Carolino Ribeiro.O carpinteiro de profissão sublinha que o irmão “nunca renegou as suas origens” e que “gostava muito da festa da Páscoa”.“Temos
aqui uma tradição da visita pascal, muito bonita, muito interessante,
que é a travessia de barco. Ele também a fez, quando fomos mordomos a
seguir ao falecimento do meu pai, em 1976. Ele ficou encantado com a
visita, nunca tinha feito. Ele é que preparava a mesa da Páscoa, punha
as flores, era muito cuidadoso e gostava muito da terra", salienta
Carolino Ribeiro. "Gostava muito de Fiscal, porque era a terra dele -
nasceu em Fiscal -, e do concelho."