Escavações arqueológicas em igreja de Vila Franca do Campo começam na segunda-feira

11 de jul. de 2025, 11:24 — Lusa/AO Online

A igreja de Santo André está a ser alvo de uma intervenção científica e multidisciplinar desde março deste ano e o projeto é promovido pelo município, na ilha açoriana de São Miguel, e pela Diocese de Angra, proprietária do imóvel.Segundo o coordenador do projeto, o arqueólogo municipal Diogo Teixeira Dias, a componente arqueológica, que inicialmente estava prevista para maio, foi adiada para este mês, devido “ao objetivo pedagógico das escavações: integrar jovens voluntários, apenas disponíveis durante as férias escolares”.Os trabalhos arqueológicos, que vão decorrer entre segunda-feira e 25 de julho, serão dirigidos pela arqueóloga e antropóloga forense Daniela Cabral, natural de Vila Franca do Campo, no âmbito do programa Estagiar L na Câmara Municipal, em articulação com os seus objetivos académicos.A campanha contará com a participação de um grupo de voluntários, incluindo estudantes da Universidade dos Açores, professores de História e alunos do ensino secundário, que “pretendem experimentar a prática da arqueologia como forma de explorar um eventual futuro profissional nesta área”.De acordo com o arqueólogo, “todas as fases da intervenção serão abertas ao público”. “Queremos envolver a comunidade local e os visitantes, mostrar-lhes o processo, para que compreendam a sua complexidade e se sintam parte dele, contribuindo, participando e apoiando. Duplica-nos o esforço logístico, porque uma escavação aberta ao público é profundamente distinta de uma escavação à porta fechada, mas acreditamos sinceramente que valerá a pena”, justificou.As escavações arqueológicas são realizadas após uma prospeção por georradar, que facilita a intervenção no terreno.Segundo Diogo Teixeira Dias, em março foi feita uma prospeção por georradar aplicada à arqueologia (espécie de radiografia ao solo) - técnica que foi utilizada pela primeira vez nos Açores -, no forte do Tagarete, na Praça Bento de Góis (presume-se que tenha sido o primitivo centro histórico de Vila Franca do Campo antes do terramoto de 1522) e também no interior da igreja e terrenos do antigo convento de Santo André.O trabalho realizado possibilita “um planeamento mais cirúrgico” das intervenções arqueológicas a realizar nos próximos cinco anos no concelho, mas o município deu prioridade à igreja do antigo convento, no âmbito de um protocolo celebrado com a diocese, que pretende devolver o templo religioso à comunidade.Já decorrem trabalhos de conservação e restauro, com destaque para a exposição-oficina patente no Centro Cultural de Vila Franca do Campo, onde estão expostas as imagens de arte sacra da igreja, entre elas a escultura de Santo André (século XVII).“Esta mostra inclui também uma área de trabalho de restauro, fotografia para inventário e levantamento tridimensional de todas as peças. A responsável pela conservação e restauro é Carolina Viana, natural da ilha de São Miguel, que está igualmente a desenvolver o seu doutoramento neste âmbito”, disse o arqueólogo.O projeto conta com o apoio de diversas entidades científicas e culturais, públicas e privadas, como a Academia das Artes da Universidade dos Açores, o CHAM - Centro de Humanidades e a Fundação Sousa d’Oliveira.“O maior desafio será agora angariar mais recursos para darmos continuidade ao projeto, restaurarmos a igreja - a começar pelo telhado - e garantirmos que nunca mais fecha portas”, referiu Diogo Teixeira Dias.O monumento, que se encontra fechado ao público, está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 2008.A igreja de Santo André integra o convento com o mesmo nome e a sua origem remonta à reconstrução da vila após o terramoto de 1522.