Escassez de mão-de-obra no setor da construção civil é problema bem presente
Hoje 09:03
— Lucas Rebelo
A falta de mão-de-obra na área da construção civil continua a ser uma dificuldade bem presente na realidade açoriana. Não sendo uma questão recente, os constrangimentos causados continuam a afetar as empresas do arquipélago.Em declarações ao Açoriano Oriental, Alexandra Bragança, presidente da direção da Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas dos Açores (AICOPA), admite que este tema tem sido debatido já “há longos meses”, tendo sido uma questão que está em cima da mesa, principalmente, desde que se iniciou execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).“Existe, de facto, uma carência muito grande de mão-de-obra no setor da construção civil, que é uma carência já estrutural dos Açores porque estas pessoas não estão disponíveis mesmo no mercado de trabalho. Por mais que nós queiramos, não existem pessoas formadas, nem existem pessoas com vontade de trabalhar no setor da construção civil”, explica a dirigente.Se em São Miguel a falta de mão-de-obra já é algo percetível, nas restantes ilhas do arquipélago esta “carência” é ainda mais acentuada. Isto acontece porque, de forma a “evitar incorrer em incumprimento contratual”, as empresas acabam por gerir os “recursos” que têm disponíveis, alocando os seus colaboradores para as obras que possuem “prazos mais prementes”. Deste modo, algumas obras acabam por evidenciar “problemas de produtividade”, visto não terem os recursos necessários para produzir em pleno.De forma a contornar os constrangimentos referidos, as empresas açorianas estão a recorrer à força de trabalho migrante, quer através de contratação direta, quer través de empresas de trabalho temporário, que têm sede no continente, mas cujo negócio é fornecer mão-de-obra às empresas que dela carecem. “As nacionalidades destes trabalhadores são muito diversificadas. Temos trabalhadores provenientes dos países africanos de língua portuguesa, do leste da Europa, da América central e até da Ásia”, indica Alexandra Bragança.“Não podemos dizer que são, essencialmente, de uma determinada nacionalidade. São de várias nacionalidades, mas muitos deles trabalham para empresas de trabalho temporário e, portanto, acabando as obras, vão retornar à origem”, salienta.Futuro da mão-de-obra após o fim do PRRCom o fim do PRR, perspetiva-se que o volume de trabalho “baixe consideravelmente”, o que pode fazer com que alguns trabalhadores acabem por “ingressar no desemprego”, sendo que muitos irão mesmo “abandonar a região”.Perante este cenário, a dirigente esclarece que o que poderá, eventualmente, “equilibrar a balança” são os “grandes investimentos provenientes do setor privado”. "Mas o certo é que esses investimentos, a maior parte deles, estão pensados para ser no setor do turismo, sendo que esta área se está a debater com algumas dificuldades no momento”, relembra. “Será que essas dificuldades vão fazer com que a promoção do investimento seja resfriada? Isto é, estarão os investidores a repensar a sua decisão de investir, considerando o cenário atual que se está a viver no setor do turismo? Tudo isto é uma incógnita”, deixa no ar a presidente da AICOPA. Em junho deste ano, os Açores contavam com cerca de 10 mil trabalhadores na área da construção civil, sendo que, no passado, os valores chegaram a atingir os cerca de 18 mil.“Se não conseguirmos manter um determinado nível de investimento, muita desta mão-de-obra vai-se perder”, concluiu Alexandra Bragança.