ESA envia na quinta-feira satélite para Júpiter com ciência e tecnologia portuguesas
11 de abr. de 2023, 15:50
— Lusa
O lançamento, a
partir da base espacial da ESA em Kourou, na Guiana Francesa, onde
Portugal estará representado pelo presidente da agência espacial
Portugal Space, Ricardo Conde, será feito às 13:15 (hora de Lisboa) a
bordo de um foguetão europeu Ariane 5. A
missão, que esteve para ser lançada em 2022, tem Bruno Sousa como
diretor de operações de voo e o satélite inclui componentes fabricados
pelas empresas LusoSpace, Active Space Technologies, Deimos Engenharia e
FHP - Frezite High Performance e um instrumento concebido em parte pelo
LIP - Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de
Partículas.JUICE (JUpiter ICy moons
Explorer, Explorador das Luas Geladas de Júpiter) irá estudar o maior
planeta do Sistema Solar e as luas Europa, Ganimedes e Calisto, onde os
cientistas pensam que possa existir água líquida (elemento fundamental
para a vida tal como se conhece) sob as crostas de gelo à superfície.O
satélite deverá chegar ao 'gigante' gasoso passados oito anos, em julho
de 2031, fazer 35 voos de aproximação às luas geladas e alcançar
Ganimedes em dezembro de 2034.Será a primeira vez que um satélite artificial orbitará uma lua de outro planeta. Espera-se
que a missão da ESA, que custou cerca de 1,6 mil milhões de euros e
teve a colaboração das agências espaciais norte-americana (NASA),
japonesa (JAXA) e israelita (ISA) em termos de instrumentação e
'hardware', termine em setembro de 2035. Os primeiros dados científicos são expectáveis em 2032.Júpiter
é 11 vezes maior do que a Terra e é composto maioritariamente por gás,
como o Sol. Ganimedes é a maior das luas do Sistema Solar e tem um
grande oceano sob a sua superfície.A
missão da ESA foi concebida para averiguar se haverá sítios em redor de
Júpiter e no interior das luas geladas com as condições necessárias
(água, energia, estabilidade e elementos biológicos) para suportar vida.À
Deimos Engenharia coube a tarefa de garantir que o satélite não
atingirá "em circunstância alguma" nem o planeta Marte nem a lua Europa,
que estão, segundo explicou a empresa à Lusa, na "categoria de proteção
planetária máxima para corpos extraterrestres", que podem
"potencialmente albergar vida".Por outro
lado, o trabalho da companhia "consistiu em melhorar a estratégia de
navegação autónoma de base da missão durante o voo de passagem por
Europa e durante a fase orbital de Ganimedes".Um
dos vários instrumentos que o satélite transporta é um monitor de
radiação desenvolvido pelo LIP e Efacec, em cooperação com a empresa
norueguesa Ideas e o instituto de investigação suíço Paul Scherrer.A
investigadora Patrícia Gonçalves, que coordenou no LIP o projeto,
esclareceu à Lusa que o instrumento "serve para medir o ambiente de
radiação ionizante" a que o satélite vai estar sujeito durante a sua
trajetória, "podendo enviar sinais de aviso para que se possam proteger
os outros detetores e sistemas" do satélite.O
monitor de radiação, sendo um detetor de partículas energéticas,
"permite também efetuar medidas científicas e complementar as medidas de
outros instrumentos" a bordo do satélite.O
LIP esteve, ainda, na liderança de um projeto da ESA de testes de
irradiação de componentes eletrónicos que integram o satélite, por forma
a assegurar que estavam preparados para "sobreviver às elevadas doses
de radiação esperadas na magnetosfera de Júpiter".Outro
dos instrumentos do JUICE é um magnetómetro, um aparelho que, no caso,
vai caracterizar o intenso campo magnético de Júpiter e a sua interação
com o da lua Ganimedes.A LusoSpace
desenvolveu uma bobina que, conforme sintetizou à Lusa o
presidente-executivo da empresa, Ivo Yves Vieira, gera um campo
magnético "que será uma referência para o instrumento de medida do campo
magnético de Jupiter".Além de escudos que
protegem os componentes eletrónicos sensíveis da elevada radiação, de
painéis solares de alimentação de energia e de uma camada isolante
contra as temperaturas extremas, o satélite dispõe de uma antena para
enviar dados para a Terra e de um computador para resolver alguns
problemas de modo independente.A antena
tem um revestimento produzido pela empresa portuense FHP e o seu
mecanismo de funcionamento foi desenvolvido pela Active Space
Technologies, com sede em Coimbra.O
satélite JUICE será a última missão enviada pela ESA desde a Guiana
Francesa a bordo de um foguetão Ariane 5, que será substituído pelo
modelo Ariane 6.Atualmente, o único satélite artificial em órbita de Júpiter é o Juno, da NASA.Portugal é Estado-membro da ESA desde 2000.