Erupção do vulcão dos Capelinhos escureceu céu do Faial há 65 anos
27 de set. de 2022, 18:53
— Lusa/AO Online
“Aquilo começou com uns abalos de
terra. Daí a pedaço, fazia uns maiores e a gente via uma coisa escura
aqui para cima, mas a gente não sabia o que era”, recorda António
Gonçalves Pereira de 76 anos, que tinha apenas 11 anos quando o
Vulcão dos Capelinhos entrou em erupção.A
escuridão dos céus era o resultado das cinzas lançadas pela erupção, na
sua fase inicial, mas, na altura, a informação era escassa e só através
da rádio é que António descobriu que, a 27 de setembro de 1957, tinha
entrado em erupção o Vulcão dos Capelinhos, na freguesia do Capelo,
concelho da Horta.“Eu e uns amigos viemos
para cima, para tentar ver o vulcão de perto, mas aqui mais à frente
estava a polícia e não nos deixava passar”, lembra António Pereira,
recordando ainda as palavras do agente que estava de serviço no local:
“Ala para trás! Não se pode passar! Isto está sempre a fazer abalos de
terra, de repente vem um grande e abafa a gente todos”.A
frequência dos sismos e o volume de cinzas lançadas pelo vulcão
obrigaram as autoridades locais e evacuarem as localidades mais próximas
da erupção (freguesias do Capelo e Praia do Norte), mas apesar de não
ter havido vítimas mortais, muitas casas e terrenos de cultivo ficaram
destruídos.“Muitas casas ficaram
destruídas! Aqui para cima, foi uma desgraça! Até lá em baixo, ao pé do
vulcão, houve casas que firam rasas de areia”, conta António, recordando
que até o Farol dos Capelinhos, que ficava na encosta junto ao sítio
onde a erupção começou, “ficou tapado” pelas cinzas.Perante
este cenário de destruição, os Estados Unidos da América abriram as
suas portas à emigração, para ajudar os desalojados da ilha do Faial,
por influência de alguns congressistas e senadores norte-americanos,
entre eles, John F. Kennedy, que pouco tempo depois seria eleito
presidente dos EUA.“Caminhou meio mundo!
Umas centenas, para não dizer, milhares de pessoas, saíram daqui para
fora, e foi uma grande coisa, se não, estava gente aqui que era um caso
sério e não havia trabalho para todos”, explica António Pereira,
recordando que os terrenos de cultivo “não produziam nada, porque
“estava tudo cheio de areia” do vulcão.Estima-se
que 30% da população da ilha do Faial (atualmente residem na ilha menos
de 15 mil pessoas), terão emigrado para os Estados Unidos e para o
Canadá, aproveitando o "Azorean Refugee Act", aprovado a 2 de setembro
de 1958, através do qual foram emitidos, de forma excecional, milhares
de vistos de emigração para cidadãos oriundos dos Açores.António
Gonçalves Pereira, mecânico reformado, diz que nunca pensou em emigrar,
mas lembra que os que ficaram também contaram com ajuda dos emigrantes
para recuperarem as casas destruídas pelo vulcão.“Famílias
que estavam lá fora e as que foram daqui para lá, juntaram-se e
mandaram centenas, para não dizer milhares de contos - na ocasião [a
moeda] era o escudo -, para ajudar na reconstrução daqui”, refere
António, adiantando que, se não fosse assim, os sobreviventes do vulcão
não teriam tido capacidade para recuperarem os seus bens.As
recordações são de quem viu de perto, há 65 anos, o nascimento do
Vulcão dos Capelinhos, cuja erupção começou a 27 de setembro de 1957 e
terminou mais de um ano depois, a 24 de outubro de 1958.Atualmente,
o que resta da erupção, desgastada pelo vento e pelas ondas do mar,
constitui uma das principais atrações turísticas da ilha, potenciada por
um centro de interpretação subterrâneo, entretanto construído no local,
que reúne toda a informação sobre a origem e as consequências do Vulcão
dos Capelinhos.