Enxurrada no Porto pode dever-se a 'entupimentos e desvio de redes'
Mau tempo
9 de jan. de 2023, 15:09
— Lusa/AO Online
"Temos
aqui um conjunto de cubos, de areias, de gravilha, e, portanto, todos
esses materiais foram empurrados pela água. E tivemos aqui situações em
que o normal escoamento, através dos sistemas de infiltração, os bueiros
- ou as sarjetas, como se diz no sul -, muitos deles estiveram
entupidos", disse à Lusa o académico.De
acordo com o professor catedrático da Faculdade de Letras da
Universidade do Porto, esta circunstância terá feito com que "a água não
se infiltrasse naturalmente nos sistemas pluviais e andasse a escorrer à
superfície"."Portanto, os próprios materiais de construção terão ajudado a provocar este enorme volume de águas superficiais", disse à Lusa.José
Alberto Rio Fernandes crê que "os estaleiros não tiveram o cuidado
relativamente ao volume de inertes que estava aqui presente", apontando
"dupla responsabilidade", tanto à Metro do Porto como à câmara
municipal, entidades que estão a avaliar as causas do sucedido."Devia-se
evitar este conjunto de inertes aqui disponíveis numa bacia de água que
tem caráter torrencial. É uma linha de água pequena e que, face a um
aviso laranja [da Proteção Civil], isto poderia perfeitamente ocorrer",
disse.Outra das possibilidades avançadas
pelo geógrafo é o desvio de um dos braços (o da Avenida dos Aliados) do
rio da Vila, curso subterrâneo de águas pluviais que atravessa o Porto,
que, segundo um documento do projeto da nova estação de metro na Praça
da Liberdade, já estará ou será desviado para uma zona próxima à estação
de comboios de São Bento, na confluência das ruas Sá da Bandeira, 31 de
Janeiro e da Madeira, junto dos outro dos braços do rio.Contactadas
pela Lusa, nem a Metro do Porto nem a câmara municipal conseguiram
confirmar se o desvio já foi feito ou se, para já, a água continua a
utilizar o canal antigo, que passa por debaixo do Hotel Intercontinental
e da Praça da Cardosas e se junta ao canal que depois vai ter à Rua
Mouzinho da Silveira.Caso já tenha sido
efetuado o desvio, para José Rio Fernandes poderão ter sido as "curvas e
contracurvas que terão precipitado a saída do Rio da Vila do seu leito
normal"."Ao colocar este volume de água a
fazer curvas e contracurvas subterrâneas, ele deve-se ter ‘aborrecido’ e
veio cá para cima", aventou o académico.José
Alberto Rio Fernandes estimou ainda que, "por causa da localização da
estação", em que "há vários fatores na escolha", um dos "que terá sido
subalternizado terá sido a questão das águas subterrâneas"."As
águas não andam como automóveis, nem têm semáforos, nem os cruzamentos
costumam ser de 90 graus. Portanto, parece-me uma solução muito pouco
adaptada à natureza", concluiu.O concelho
do Porto registou, no sábado, em menos de duas horas, 150 pedidos de
ajuda por causa das inundações em habitações e vias públicas,
principalmente na baixa da cidade, disse à Lusa fonte da Proteção Civil
local.O vice-presidente da câmara
municipal, Filipe Araújo, destacou que a autarquia do Porto não estava
preparada para o que sucedeu na Rua Mouzinho da Silveira, perto da
estação de São Bento e da Ribeira, e onde decorrem obras da Metro do
Porto, reconhecendo que as obras que estão a decorrer podem ter provado
alguma alteração.Na sequência das
enxurradas, a Metro do Porto pediu um estudo sobre as condições da
empreitada da Linha Rosa, que decorre na baixa da cidade, ao Laboratório
Nacional de Engenharia Civil (LNEC).