Ensino à distância é um “remendo” e não solução para o futuro
Covid-19
2 de jun. de 2020, 17:55
— Lusa/AO Online
“Não pensemos que o que aconteceu neste
terceiro período, e está a acontecer, é uma mudança paradigmática na
educação. É um remendo para poder levar este ano letivo até ao fim e
agora interessa-nos estarmos num trabalho de preparação para o próximo
ano letivo”, afirmou João Costa. O
secretário de Estado participou num ‘webinar’ sobre os desafios e
oportunidades para a educação do futuro, organizado pela Câmara de
Comércio e Indústria, e falou sobre os constrangimentos colocados pelo
modelo que substituiu as atividades presenciais, suspensas devido à
pandemia da covid-19, e sobre as lições para o futuro. Recordando
a forma rápida como a pandemia avançou pelo mundo e entrou em Portugal,
o secretário de Estado explicou que o Governo teve de implementar um
“plano que não foi preparado” e que a resposta encontrada não é uma
solução para o futuro.“Nenhum sistema
educativo no mundo estava preparado para isto e aquilo que fizemos, de
março para cá, foi, no fundo, arranjar uma solução de emergência”,
considerou João Costa.Referindo como
exemplo o programa #EstudoEmCasa da RTP Memória, o secretário de Estado
sublinhou que assegurar a conectividade, por si só, é “manifestamente
insuficiente” e não garante a aprendizagem.“O
acesso à educação não significa sucesso na educação, não basta haver
escola para garantir que as crianças aprendam”, afirmou, comparando os
meios digitais, num contexto de ensino à distância, a um “novo
transporte público para chegar à escola”.Desde
o início do ensino à distância, em 16 de março, quando o Governo
suspendeu as atividades letivas presenciais em todos os estabelecimentos
de ensino, uma das principais preocupações das comunidades escolares,
das autarquias e do executivo foi a de assegurar o acesso à educação,
através da disponibilização de equipamentos de materiais de trabalho.Apesar
desses esforços, que não resolvem todas os problemas, o modelo atual
transporta constrangimentos que não são possíveis de ultrapassar,
alertou João Costa, referindo que “a essência do ato educativo está na
dimensão relacional” e que, não sendo esta possível, o ensino à
distância tem efeitos negativos ao nível do desenvolvimento de
competências sociais e emocionais.“Esta
distância que agora foi criada é uma machadada muito grande nestas áreas
de competência, nas competências sociais e nas competências emocionais.
Porque a essência do ato educativo está na dimensão relacional”,
referiu.Este foi um dos problemas
apontados por Pedro Cunha, diretor do Programa Gulbenkian Conhecimento e
diretor-adjunto da Fundação Gulbenkian, que também participou no
‘webinar’, em que explicou que esta nova forma de ensino está a ter um
impacto negativo, sobretudo nas crianças mais novas, do ponto de vista
da saúde mental e do seu desenvolvimento em outras áreas
extracurriculares.Por outro lado,
continuou, a forma como o ensino à distância está em muitos casos a
funcionar, com um acompanhamento espaçado por parte dos professores, que
tem vindo a ser denunciado pelas associações de pais, significa também
que as aprendizagens ficam aquém. “Não é
realista imaginar que uma criança do primeiro ciclo de escolaridade tem
as competências de autonomia, de organização, de planeamento, de
controlo, de regulação emocional para trabalhar 20 horas por semana
autonomamente e cinco horas por semana com o professor”, considerou
Pedro Cunha, que é também especialista em psicologia educacional.João
Costa foi mais longe e referiu que este “remendo” não permite evitar o
agravamento das desigualdades socioeconómicas, que são consequência de
qualquer crise. “Em primeira instância, a
escola tem uma função social e esta função social não é reproduzível à
distância”, explicou, acrescentando que, por outro lado, o modelo remoto
exerce uma grande pressão sobre as famílias, que passam a ter um papel
mais ativo na orientação do trabalho dos alunos.“Esta
dependência das famílias não é justa, na medida em que há pais que têm
capacidade, formação, disponibilidade para apoiar os seus filhos, mas há
outros que simplesmente não conseguem e por muito intencionados que
estejam sentem-se perdidos e isto também é um enorme acelerador de
desigualdades”, explicou.