“Ensinar é um trabalho de que gosto muito por não ser rotineiro”
3 de mai. de 2026, 08:00
— Susete Rodrigues
Gianna De Toni nasceu na Toscana, Itália, numa cidade bastante pequena e semelhante a Ponta Delgada. Uma cidade à “beira mar”, explicou, para sublinhar que sempre esteve “ligada ao mar. Não saberia viver sem ele”. As lembranças da sua infância são muito bonitas. Conta que “foi uma infância bastante feliz, mas infelizmente, depois perdi os meus pais muito novos, os dois”.O seu percurso musical começou cedo, por incentivo familiar: “Por volta das 9/10 anos, o meu pai disse-me que devia escolher algo além da escola, que fosse um desporto, dança ou música”. Escolheu a guitarra sem hesitação, inspirada por um primo. Contundo, depois “tive algumas dúvidas em relação aos instrumentos. Ou seja, passei cerca de um ano a observar os restantes, para perceber de qual gostava mais. No entanto, após quase um ano a tocar peças muito básicas na guitarra, estudei uma canção de embalar - que ainda hoje sei tocar e permanece na minha memória - e, por já se tratar de algo mais complexo, achei aquilo maravilhoso na minha perceção harmónica. Desde então, nunca mais desisti”.A chegada aos Açores deu-se em 1999, altura em que “surgiu a “possibilidade de trabalhar no Conservatório de Ponta Delgada, com estatuto de professor-convidado”. Depois, “entre 2000 ou 2001, iniciaram-se os concursos e candidatei-me. Sucessivamente, frequentei o primeiro ano de profissionalização em serviço na Universidade Aberta e concluí o percurso na Universidade dos Açores”.Em São Miguel, Gianna De Toni construiu, não apenas uma carreira, mas fez da ilha a sua nova casa. Diz que “não sou uma pessoa complicada, adaptei-me bem, apenas mudei de mar”. Fez amigos e encontrou na ilha espaço para crescer, enquanto artista e enquanto pessoa.Professora de guitarra clássica, foi expandindo os seus horizontes musicais e a curiosidade levou-a ao encontro da música improvisada e ao jazz, para mais tarde estudar contrabaixo. Refere que, “apesar de não ter nenhum título, tive um grande orientador, o Michael Ross, que me ajudou bastante”. Integra diversos projetos artísticos e pedagógicos, tais como a 432Hz - Associação Cultural para as Artes e Ciências. “Uma associação recente que tem o objetivo de promover a arte e a ciência como meio de expressão e que tenta incentivar a criação artística multidisciplinar, não só através da criação de performances, mas também através de oficinas, por exemplo”, explicou. Também dá aulas na Escola de Música de Rabo de Peixe. Diz que é “muito gratificante trabalhar lá, porque é uma escola bastante diferente do Conservatório. Considera tratar-se de “uma escola mais livre, muito mais ligada à minha essência”. É uma escola que, “às vezes, me proporciona grande satisfação. Destaco, em particular, entre os projetos desenvolvidos, o deste ano, integrado no Festival Tremor, que contou com a músico brasileiro Itiberê Zwarg”. Sublinha ainda que, “quando os resultados conseguem superar as expectativas, é motivo de satisfação”, confessando sentir “muito orgulho nesta escola”.Gianna De Toni, em conjunto com Antonella Barletta, Isabel Mesquita e Sara Miguel, formam as ‘Línguas de Fogo’, um grupo que nasceu de uma residência artística realizada no Pico e que celebra Natália Correia, uma “figura que é ainda tão atual e tão importante, porque ela não foi só uma poetisa, foi ativista, deputada, jornalista e muito mais”. “O projeto, não só tem o objetivo de potenciar a reaproximação do público à sua obra, sobretudo aos jovens, mas também refletir sobre o papel das mulheres (porque ainda há trabalho para fazer) e estimular a criação artística ao feminino. O facto de ser mulher não invalida ser mãe, música, compositora ou aquilo que uma mulher quiser ser”, disse.Para Gianna De Toni, o ensino assume um papel importante na sua vida. É “um trabalho de que gosto muito por não ser rotineiro: as crianças são sempre diferentes e o trabalho que desenvolvo com elas é sempre diversificado, nunca é igual”, conta. Na sua opinião, o “Conservatório é uma grande oportunidade na aprendizagem musical. Um dos objetivos principais é fazer com que a música faça parte da vida dos alunos, consequentemente das famílias”. Acrescenta ainda a importância de criar um público que “pense sozinho e que não ande atrás das massas. Mudar estereótipos através da música é possível e já estão à vista os benefícios de saber tocar um instrumento”.Questionada se seria possível viver-se exclusivamente da música, Gianna De Toni responde assim: “Creio que viver exclusivamente como músico profissional na ilha é muito difícil, por ser um meio pequeno. Creio que aqueles que o conseguem são tão poucos que se contam pelos dedos da mão. Quase todos os que conheço são obrigados a complementar a vida artística com outro trabalho, para poder sobreviver”. Em relação à apresentação de projetos artísticos, “falta, muitas vezes, a oportunidade de serem apresentados mais vezes, ou seja, nunca há garantia de continuidade. Isto acontece muito cá na ilha. Realizar um projeto não é apenas idealizá-lo; é transformá-lo em palco, estudá-lo, fazer arranjos e tratar de milhares de aspetos necessários à sua concretização. O que quero dizer é que atrás de um projeto existe um grande investimento e muitas horas de trabalho. Por isso, é profundamente desanimador para os criadores que seja apresentado apenas uma vez, por falta de interesse e de investimento na cultura e pela ausência de uma rede que permita a sua circulação”.Entre aulas, ensaios e projetos, o tempo de Gianna De Toni organiza-se com esforço. “Estou sempre a trabalhar”, admite com boa disposição, explicando que o ‘segredo’ “está na vontade e na capacidade de organização”.Em relação a próximas atuações e projetos, após uma ida à Terceira com as ‘Línguas de Fogo’, Gianna De Toni, está a trabalhar numa performance da Associação 432 Hz, que será apresentada “no início do próximo ano letivo, no âmbito da PDL 26. Já realizámos essa performance em contexto comunitário com cerca de 17 pessoas envolvidas, mas agora ganha uma nova roupagem com um grupo restrito”, explica. A performance apela à importância de refletirmos sobre o descontrolo do ruído (provocado pelo humano) no oceano e de como pode influenciar o habitat marinho”. “Sem nos esquecermos dos mais pequenos ,estivemos a realizar vários workshops, igualmente, ligados ao mar, onde as crianças podem ouvir os sons dos cetáceos, descobrir o que comem, conhecer os seus comportamentos e, por fim, compreender também como as ondas sonoras se propagam debaixo de água”.Um outro projeto, ainda em fase embrionária, “centra-se na utilização das mãos”. Gianna De Toni explica que a “ideia nasce de um conto infantil de uma escritora/psicóloga italiana, no qual uma menina pergunta à avó como se cura a dor e a avó responde que a dor se cura através das mãos. Assim, ao pôr as mãos na terra, cozinhar, costurar, tocar um instrumento etc...curamos a nossa alma. Muitas poucas vezes olhamos para a importância das nossas mãos. Este será o novo tema do próximo projeto da Associação, um tema interessante e com uma mensagem maravilhosa”.