Encontro internacional une tradição ancestral e economia circular
Hoje 11:06
— Ana Carvalho Melo
O Museu Carlos Machado acolheu esta semana cerca de 65 investigadores, artistas e criadores de todo o mundo no âmbito do projeto europeu CIRCUL’ARTs, que escolheu os Açores como palco da sua segunda grande reunião internacional por reconhecer nas ilhas um “caldo de práticas ancestrais” que conseguiram sobreviver e integrar-se na economia contemporânea.O encontro termina hoje e incluiu uma conferência, uma escola de formação (’training school’) com ateliers de artesanato local e a inauguração de uma exposição fotográfica.“Escolhemos São Miguel porque é um caldo de muitas práticas ancestrais que ainda permanecem vivas na comunidade e que conseguiram, de uma forma muito bonita, entrar num sistema económico de circularidade, colocando as práticas ancestrais ao serviço da comunidade”, explicou ao Açoriano Oriental Filipa Lourenço, investigadora e professora na Universidade Lusófona de Lisboa e uma das coordenadoras do projeto.O CIRCUL’ARTs é financiado pelo programa europeu COST Actions, vocacionado para a mobilidade de investigadores, e envolve cerca de 400 participantes de instituições europeias e de países como a Índia e o Brasil, ao longo de quatro anos (2024–2028).O projeto propõe uma visão alargada de “circularidade” que vai além da reciclagem tecnológica de recursos: “Pretende ligar esta circulação de recursos com um lado mais espiritual, mais artístico, com todo o sistema de conhecimento que está ligado a práticas sociais”, sublinhou Marta Jecu, também coordenadora do projeto e investigadora da Universidade Lusófona de Lisboa.A professora universitária acrescentou que o projeto procura ainda trabalhar com práticas históricas e analisar como estas podem sobreviver na atualidade, assim como criar pontes entre o mundo europeu e não europeu.Em São Miguel, o projeto tem trabalhado diretamente com organizações locais como o Centro de Artesanato e Design dos Açores (CADA), a Arrisca, a Casa do Nordeste, a Cooperativa de Artesanato e Solidariedade Social Senhora da Paz, a Cerâmica Vieira e a Gorreana. “A ideia é também escrever sobre isso, como estudos de caso. Temos cerca de 400 participantes nesta rede e todos vão levar consigo o que experienciaram”, explicaram.Neste contexto, entre quarta e sexta-feira, as sessões da tarde assumiram o formato de workshops práticos com artesãos locais, permitindo que os participantes tivessem contacto direto com as tradições insulares. “Todas essas pessoas vão voltar para os seus países e levar como inspiração para as suas próprias comunidades”, salientaram as responsáveis.Já durante a manhã decorreram sessões de partilha de experiências, onde participaram especialistas, investigadores e artistas europeus mas também vindos da Índia, do Brasil e de outros países da América Latina.O programa incluiu ainda a inauguração de uma exposição fotográfica de Mariana Lopes, fotógrafa açoriana que há vários anos documenta os artesãos da ilha e o seu diálogo com designers internacionais.“Esta perspetiva é exatamente a que queremos ter no nosso projeto e por isso foi muito importante integrar o trabalho da Mariana Lopes. A maneira dela de fotografar não é uma apologia à preservação de formas ancestrais, mas sim uma renovação dessas formas, investindo-as com novo conteúdo relevante para o presente”, descreveu Marta Jecu, curadora da mostra.Esta exposição está patente no Núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado até ao dia 19 de maio.A equipa destacou ainda o papel determinante do Museu Carlos Machado na organização do evento. “Tivemos aqui o apoio do Museu Carlos Machado e da equipa, que foi espetacular e nos proporcionou espaços mágicos e um acolhimento magnífico. Esta ilha não se comporta como uma ilha, está aberta ao mundo”, afirmaram.