Empresários de São Miguel e Santa Maria alertam para "crise inevitável" no turismo

Hoje 17:04 — Lusa/AO Online

Em comunicado, a associação empresarial das ilhas de São Miguel e de Santa Maria, salienta que os Açores estão “numa fase de crescimento e consolidação do seu destino turístico”, pelo que é “difícil aceitar" que este percurso esteja "ameaçado por uma sucessão de decisões (ou omissões) que colocam a região numa situação económica critica".Na quarta-feira, o presidente executivo da Ryanair, em entrevista à Lusa, disse que a companhia aérea vai encerrar a base nos Açores no fim de março, uma decisão “final”, motivada pelas taxas aeroportuárias e pela tributação ambiental europeia.Na nota, a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) sublinha que "a anunciada saída da Ryanair, aliada à redução da operação da SATA Azores Airlines e à ausência de investimento em alternativas credíveis, está a ter — e continuará a ter — consequências negativas profundas na economia regional".Para a associação, trata-se de uma crise “perfeitamente evitável”, que evidencia a falta de visão estratégica, de planeamento a médio e longo prazo e “sem responsabilização política clara”.Segundo a associação empresarial, a presença da Ryanair nos Açores tem "um papel estratégico que vai muito além do número de passageiros transportados e do número de lugares" que disponibiliza para o arquipélago (cerca de 120000 lugares, ida e volta, no aeroporto de Ponta Delgada em 2025)”, mas sobretudo pelo seu papel enquanto “um verdadeiro regulador de preços nos mercados onde opera.“A sua saída implica, de forma previsível e amplamente comprovada noutros destinos, uma subida significativa dos preços praticados pelas companhias de bandeira que asseguram as ligações aos Açores” e agravando o encargo com o Subsídio Social de Mobilidade e com “a despesa pública nacional”, penalizando a economia regional e os contribuintes, alerta a associação presidida por Gualter Couto.A associação critica ainda “a incompetência” na gestão do processo, rejeitando a responsabilização da companhia aérea e apontando falhas ao Governo Regional e à Visit Azores, que se "desleixaram à sombra do Governo da República que está de barriga cheia, com Lisboa e Porto a abarrotar de turistas e sem terem necessidade de se preocupar com os Açores”."Poderíamos ter tido novamente a easyJet em Ponta Delgada com benefício geral para toda a região, mas preferiram exigir que voasse também para a Terceira, como se o turismo crescesse por decreto e, assim, ficámos todos em pior situação por tacanhice política. É legitimo questionar se a saída da Ryanair não se deve também à exigência de operar em duas ilhas sem ter conseguido sequer consolidar o destino numa, que por sua vez pudesse escoar para as restantes através da Sata Air Açores", sustenta.Para a CCIPD, “a incompetência" na gestão do ‘dossier’ "vai sair muito caro aos açorianos e à economia" e "não vale a pena atirarem areia para os olhos a culpar a companhia aérea".A Câmara de Comércio refere que os efeitos já são visíveis com “hotéis com taxas de ocupação em queda”, frotas de rent-a-car “mobilizadas, restaurantes e empresas de animação turística a operar “muito abaixo da capacidade instalada”, alegando que é este o retrato de “várias ilhas, mas sobretudo em São Miguel.Esta quebra traduz-se “inevitavelmente em menor receita fiscal, menor emprego e maior pressão sobre as finanças públicas regionais”, sustenta a CCIPD, que sublinha ter alertado “desde maio do ano passado” o Governo açoriano.A CCIPD aponta também fragilidades graves na promoção do destino, destacando o orçamento “insuficiente” da VisitAzores — cerca de oito milhões de euros, face aos 30 milhões da Madeira — e a baixa taxa de execução de “apenas 40%”.Por outro lado, acrescenta, a direção regional do Turismo está “demissionária há mais de um ano, sem estratégia visível, sem promoção relevante”, ao contrário da Madeira que apostou numa “gestão profissional do destino”.A CCIPD exige, por isso, "uma estratégia profissional e independente de gestão" do destino turístico, um plano urgente e "credível" para garantir acessibilidades aéreas, o reforço da promoção externa e "um investimento imediato" na qualificação do produto e das infraestruturas.