Empresa beneficiária de aval do Governo dos Açores em “incumprimento”
28 de mar. de 2023, 18:50
— Lusa
“A
Angra-Sol já deve cinco prestações e a região está tão protegida que já
teve de pagar três”, denunciou o secretário regional das Finanças,
Planeamento e Administração Pública, Duarte Freitas, ouvido hoje na
comissão parlamentar de inquérito à concessão de avales, que reuniu em
Ponta Delgada.Segundo o governante, o
plano de pagamentos assinado entre a Angra-Sol e a empresa pública Ilhas
de Valor (através da qual foi atribuído o aval), “não está a ser
cumprido” por parte do privado, embora a região não possa intervir no
processo.“Só quando a Caixa Económica da
Misericórdia entender que já não tem solução para reaver o seu
empréstimo, é que poderá acionar a Ilhas de Valor, para a Ilhas de Valor
acionar a Angra-Sol”, justificou o titular da pasta das Finanças no
arquipélago.Duarte Freitas considerou
também que o aval concedido pelo governo socialista à empresa Angra-Sol,
não foi “transparente” e que “não houve equidade” no acesso a
benefícios públicos que, no seu entender, deviam estar disponíveis para
todos.“Não houve transparência, não houve
igualdade, não houve equidade e houve proteção a uma determinada
empresa, em prejuízo de muitas outras que poderiam ter tido a mesma
solução”, acusou o governante, respondendo a questões levantadas pelos
membros da comissão de inquérito, criada pelo parlamento açoriano.Carlos
Silva, deputado socialista, entende, porém, que “não houve nenhum
benefício” à empresa Angra-Sol, quando lhe foi concedido um aval no
valor de cinco milhões de euros sobre o apoio não reembolsável destinado
à construção de um hotel de cinco estrelas, na ilha Terceira. O
socialista lembrou que o empresário foi obrigado a dar como garantia
uma hipoteca sobre o imóvel, algo que nunca foi imposto a nenhum outro
empresário dos Açores.Duarte Freitas
acusou os socialistas de estarem mais preocupados em defender um
empresário do que em defender o interesse regional: “Os senhores estão
confortáveis a defender a Angra-Sol, mas da minha parte, não tenho essa
visão, nem tenho qualquer interesse em proteger a Angra-Sol”.O
secretário regional das Finanças disse também que, se estivesse no
Governo na altura em que o aval foi concedido àquela empresa, teria
divulgado aos restantes empresários da região que também poderiam aceder
a este tipo de apoio.“Abriria,
naturalmente, essa possibilidade para todas as outras empresas que
quisessem aceder a esta mesma prerrogativa. Eu acho que isto é
elementar”, frisou o governante.Joaquim
Machado, deputado do PSD, entende que houve “falta de transparência”
neste processo, acusando mesmo o anterior governo socialista de “atos de
má gestão” e de não ter respeitado as obrigações legais sobre a
concessão de apoios a privados.O caso que
suscitou a criação de uma comissão parlamentar de inquérito à Concessão
de avales remonta a 2010, ano em que o secretário regional da Economia,
Vasco Cordeiro (que foi presidente do Governo entre 2016 e 2020), e o
vice-presidente do Governo, Sérgio Ávila (atual deputado à Assembleia da
República), autorizaram a concessão excecional de um aval de cinco
milhões de euros, através do SIDER (Sistema de Incentivos ao
Desenvolvimento Empresarial dos Açores), mas exigiram uma hipoteca sobre
o hotel.“No contrato que assinamos com o
Governo, não estava prevista hipoteca nenhuma! Até nisso a Angra-Sol foi
prejudicada”, lamentou Américo Gonçalves, o proprietário da empresa
Angra-Sol, quando foi ouvido pelos deputados, no âmbito deste inquérito,
recusando sempre a ideia de que tenha tido qualquer benefício da
região.