Emmanuel Macron visita China com foco na Ucrânia e relações económicas
4 de abr. de 2023, 08:09
— Lusa/AO Online
“O presidente Xi Jinping vai
reunir-se com [Macron] para planear e liderar, em conjunto, o
desenvolvimento futuro das relações sino - francesas e aprofundar a
cooperação com a França e a Europa em vários campos”, disse, na
segunda-feira, Mao Ning, porta-voz do ministério dos Negócios
Estrangeiros chinês. “Eles vão trocar opiniões aprofundadas sobre as principais questões internacionais e regionais”, acrescentou.A viagem de Macron termina com uma visita a Cantão, a capital da província de Guangdong, no sudeste da China.“Os
presidentes da França e da China vão manter amplas discussões sobre a
guerra na Ucrânia, visando trabalhar no sentido de restaurar a paz e o
respeito pelo direito internacional, particularmente a integridade
territorial e a soberania da Ucrânia”, disse o gabinete do presidente
francês, em comunicado.A viagem de Macron
coincide com uma visita à China da presidente da Comissão Europeia,
Ursula von der Leyen, e ocorre após uma deslocação ao país asiático do
primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Também o chanceler alemão,
Olaf Scholz, esteve em Pequim, em novembro passado.Analistas
citados pela imprensa oficial chinesa consideraram que as visitas de
líderes europeus a Pequim ilustram o reconhecimento da importância do
país asiático como “promotor da paz”.O
“modelo de resolução de disputas internacionais” da China é “amplamente
reconhecido” pela comunidade internacional e a visita de líderes
europeus ao país “reflete a ânsia da Europa” em alcançar uma solução
para a crise na Ucrânia, que “está a preocupar profundamente o
continente”, escreveu o Global Times, jornal oficial do Partido
Comunista Chinês, com base nas declarações de analistas chineses.Xi
reclamou abertamente um papel maior para a China na resolução de
questões internacionais. Num triunfo para o líder chinês, o Irão e a
Arábia Saudita anunciaram, no mês passado, em Pequim, um acordo para
restabelecerem as relações diplomáticas, cortadas por Riade em 2016.“A
China está a entrar no Oceano”, disse metaforicamente o coronel
reformado chinês Zhou Bo, numa entrevista à revista Time. “Não há como
voltar atrás”.As visitas dos líderes
europeus ocorrem apenas algumas semanas depois de Xi reunir com o
homólogo russo, Vladimir Putin, em Moscovo.“Se
há um único país que pode levar Moscovo a mudar os seus cálculos é a
China”, admitiu, na segunda-feira, um funcionário do gabinete de Macron,
citado pelo jornal britânico Financial Times.Numa
conversa por telefone com o assessor diplomático do presidente francês,
Emmanuel Bonne, após a visita de Xi a Moscovo, o chefe da diplomacia
chinesa, Wang Yi, defendeu que a China e a Europa devem chegar a um
“consenso estratégico” para promoverem um cessar-fogo e uma resolução
política da guerra.Pequim apresentou uma
proposta para a paz, que foi criticada na Europa e nos Estados Unidos
por não exigir a retirada das tropas russas e ignorar as reivindicações
de soberania de Kiev nos territórios ocupados.Na
semana passada, num debate no Parlamento Europeu, Ursula von der Leyen
disse que a visita de Xi a Moscovo foi uma “lembrança absoluta” dos
objetivos globais de Pequim.A líder
europeia rejeitou as propostas da China para a paz na Ucrânia, mas
ressalvou que a “China tem a responsabilidade de desempenhar um papel
construtivo no avanço de uma paz justa”.“Longe
de se deixar abater pela invasão atroz e ilegal da Ucrânia, o
presidente Xi mantém a sua ‘amizade sem limites’ com a Rússia de Putin”,
disse.Ursula von der Leyen lembrou que a
“forma como a China continua a interagir com a guerra de Putin, será um
fator determinante para as relações UE - China daqui para a frente”.Citado
pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post, o professor de
relações internacionais da Universidade de Sichuan, no sudoeste da
China, Pang Zhongying, disse que Macron e von der Leyen vão continuar a
instar a China a exercer a sua influência sobre a Rússia para acabar com
a guerra, enfatizando o ponto em comum com Pequim sobre a necessidade
de respeitar a integridade territorial e condenar ameaças de uso de
força nuclear.“Se a China não usar o seu
relacionamento com a Rússia, tornar-se-á difícil para os líderes
ocidentais acreditar no seu plano de paz ou falar num acordo político”,
disse Pang.As questões económicas também
vão estar no topo da agenda das visitas. A presidente da Comissão
Europeia disse que o bloco deve considerar restringir o investimento de
empresas europeias na China em setores sensíveis, como robótica,
computação quântica e inteligência artificial.“O
presidente Macron também pretende defender os interesses das empresas
francesas e garantir que uma relação equilibrada com a China beneficia
as empresas e os consumidores franceses”, lê-se no comunicado do
gabinete do presidente francês.O líder
francês vai ser acompanhado pelo ministro das Finanças, Bruno Le Maire, a
ministra dos Negócios Estrangeiros, Catherine Colonna, e líderes de
cerca de 50 empresas, incluindo o grupo de energia nuclear EDF e o grupo
de água e resíduos Veolia. A construtora Airbus também faz parte da delegação, numa altura em que está a negociar um contrato para fornecer aviões à China.A China é o terceiro maior destino das exportações da União Europeia e o maior fornecedor das importações da UE.Von
der Leyen também visitou Washington no início de março para discutir a
cooperação em matérias-primas, visando reduzir a dependência da UE face à
China. Quase todas as terras raras da Europa provêm da China.