Emigrantes nas Bermudas deixam de visitar Portugal por não poderem conduzir no país
15 de out. de 2022, 09:57
— Lusa /AO Online
Andrea Moniz-DeSouza, cônsul honorária de Portugal em Hamilton, capital da Bermuda, a principal ilha no arquipélago britânico das Bermudas, onde 25% da população tem ascendência portuguesa, considera que esta situação prejudica muito os portugueses que ali residem e também o turismo em Portugal.Nas ilhas das Bermudas – onde os primeiros portugueses chegaram em 1849 – a comunidade portuguesa está “bem integrada” e destaca-se pela forma como mantém viva as tradições portuguesas.São, aliás, estas atividades culturais que fazem com que muitos bermudenses e cidadãos de outros países que vivem nas Bermudas fiquem curiosos em relação a Portugal e manifestem vontade de visitar este país.Contudo, tanto os lusodescendentes como os naturais das Bermudas e de outros países, que para ali emigraram, desistem de visitar Portugal porque as suas cartas de condução, tiradas no território britânico, não são válidas em Portugal, acontecendo o mesmo aos portugueses que visitem as Bermudas.“Imagine o que é visitar Portugal [continente] e os Açores, região de onde são oriundos 95% dos emigrantes portugueses nas Bermudas, e não poder alugar um carro. Muitos não estão para isso e optam por outro destino”, disse Andrea Moniz-deSouza.A advogada lamenta este entrave que, segundo afirmou, faz com que muitos lusodescendentes que não conhecem Portugal não o façam para não ficarem privados de conduzir e de se deslocar de carro.“Já é difícil manter os mais jovens ligados às iniciativas culturais – o grande desafio das associações de emigrantes – e esta impossibilidade de conduzir em Portugal contribui para um maior afastamento”, apontou.Andrea Moniz-deSouza, que já esteve à frente de movimentos associativos nas Bermudas, como o Clube Vasco da Gama, fundado em 1935, afirmou que tenta alterar esta situação há uma década, tendo transmitido a ideia aos sucessivos governos, regional e nacional.“O que nos dizem é que as Bermudas têm de mudar para Portugal mudar”, avançou.A Lusa questionou o gabinete do ministro das Infraestruturas e da Habitação, que confirmou a inexistência de qualquer protocolo adicional relativo à vinculação à Convenção de Genebra sobre Trânsito Rodoviário de 1949, nem à Convenção de Viena de 1968.A mesma fonte referiu que entre o território britânico e Portugal “não é aplicável o regime de reciprocidade no reconhecimento de títulos de condução”.Segundo o Ministério das Infraestruturas e da Habitação, as cartas de condução obtidas nas Bermudas “não são válidas para a condução de veículos” em Portugal.Questionado pela Lusa, fonte oficial do governo dos Açores indicou que “esta matéria não é da competência do governo dos Açores, mas sim da exclusiva responsabilidade do Governo da República”, pois está relacionada com “a relação direta entre Estados”.“A pedido da comunidade portuguesa da Bermuda, que é quase exclusivamente de origem açoriana, já sensibilizámos deputados dos Açores à Assembleia da República para colocarem a questão ao Governo da República”, disse a mesma fonte, acrescentando: “A resposta formal foi enviada pelo Governo ao parlamento, há um ano, evocando o princípio da reciprocidade e resumindo que Portugal só pode reconhecer as cartas de condução da Bermuda quando a Bermuda reconhecer as cartas de condução de Portugal”.Para Andrea Moniz-deSouza, além dos entraves à ligação entre os lusodescendentes e a sua terra de origem, nomeadamente os Açores, o turismo português também perde com este obstáculo.“Os bermudenses têm muito interesse em conhecer Portugal, principalmente quando assistem às nossas manifestações culturais, como as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres e do Divino Espírito Santo, tradicionais dos Açores e que reproduzimos no arquipélago”, disse.Mas a curiosidade não é suficiente para ultrapassar o impedimento de conduzir em Portugal, referiu a jurista, lamentando que o turismo fique a perder devido a um obstáculo que, “com boa vontade”, poderia ser ultrapassado.