Em plena pandemia, muçulmanos preparam-se para um Ramadão sombrio
Covid-19
20 de abr. de 2020, 12:21
— Lusa/AO Online
O
início do Ramadão é determinado com base na observação do início da
fase crescente da Lua e pode assim começar em dias diferentes consoante o
país.Iguais são as regras do confinamento
devido ao novo coronavírus que, no Médio Oriente e não só, obrigarão
quase todos a rezarem em casa, evitando as concentrações nas mesquitas.“Os nossos corações choram”, aflige-se o muezim da Grande Mesquita de Meca, cidade santa do islão, agora deserta.Nem
encontros para as grandes refeições de quebra do jejum diário
(‘iftar’), nem orações noturnas na mesquita (‘tarawih’), nem viagens às
cidades santas do islão em tempos de distanciamento social.“Estamos
habituados a ver a Grande Mesquita cheia de pessoas durante o dia, à
noite (…) É um desgosto profundo”, adianta o muezim Ali-al-Molla.Para
conter a propagação do novo coronavírus, as autoridades sauditas
suspenderam a pequena peregrinação, a ‘omra’, a Meca e Medina, e parece
provável a anulação também da grande peregrinação anual, o ‘haji’, no
final de julho. Riade apelou aos muçulmanos para suspenderem os seus
preparativos de viagem a Meca.Vários outros países da região, como o Egito, insistiram na necessidade de rezar em casa e evitar as concentrações.Em
Jerusalém, cidade da mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar sagrado do
islão, o grande mufti, Mohammad Hussein, anunciou restrições semelhantes
em relação às orações durante o Ramadão.Também
a Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu aos países “para impedirem
que um grande número de pessoas se junte em locais associados às
atividades do Ramadão, como locais de entretenimento, mercados e lojas”.O
mês de jejum é geralmente um período de grande consumo das famílias no
Médio Oriente, mas este ano os comerciantes provavelmente serão afetados
pela relutância dos compradores, que desejam sobretudo conseguir
máscaras, luvas ou desinfetantes.No Irão, o
país do Médio Oriente mais atingido pela pandemia, com mais de 5.000
mortos entre 80.000 infetados, o supremo líder, ‘ayatollah’ Ali
Khamenei, pediu aos seus cidadãos para evitarem qualquer concentração
durante o Ramadão, sem “negligenciar a oração, a súplica e a humildade
na solidão”.Nos Estados Unidos, o país com
mais mortos (40.500) e mais casos de infeção confirmados (mais de
737.000), as comunidades religiosas em todo o país foram obrigadas a
fechar as portas.A Sociedade Islâmica da
América do Norte, juntamente com especialistas muçulmanos, pediu a
suspensão das orações em grupo e da escola dominical, entre outros
ajuntamentos.Ao contrário, no Paquistão
(7.993 casos e 159 mortos), o primeiro-ministro, Imran Khan, concordou
no sábado em manter as mesquitas abertas durante o mês do Ramadão, tendo
solicitado aos fiéis que mantenham um distanciamento social seguro.Ao mesmo tempo, líderes religiosos do país apelam aos muçulmanos para encherem as mesquitas.Segundo
a OMS, embora o confinamento não permita as festividades, não impede os
muçulmanos saudáveis de jejuar, devendo os doentes com covid-19
consultar os seus médicos sobre o jejum “como fariam com qualquer outra
doença”.Mantém-se também o tradicional apelo das autoridades religiosas à caridade, um dos cinco pilares do islão.“O
Ramadão é sempre um período de caridade e, este ano, os necessitados
são numerosos, sobretudo com os deslocados pela guerra”, lembra Karima
Mounir, uma banqueira líbia de 54 anos.