Surf é passaporte para inclusão de crianças refugiadas e migrantes
23 de jun. de 2024, 08:39
— Lusa
Foram
cerca de sete dias, mais de 168 horas, sem saber se o sonho e a vontade
sobreviveriam à força do Oceano Atlântico que une a Gâmbia, país da
África Ocidental, e Portugal.Yankuba
Daffeh, de 16 anos, era um entre cerca de 130 migrantes - a maioria
rapazes - que partiram em busca de uma vida melhor. Sem saber nadar,
enfrentou o mar, como hoje enfrenta o futuro: com esperança.“Nós
viemos por mar, foram cerca de sete dias, por barco. Éramos 128 rapazes
e três raparigas no barco. Quando chegámos a Espanha decidi continuar a
viagem para Portugal, porque esse era o meu objetivo. Cheguei a
Portugal, em fevereiro, e fui trazido para São João da Madeira pela AIMA
[Agência para a Integração Migrações e Asilo] e pela polícia”, contou,
na praia de Matosinhos, no distrito do Porto, onde têm lugar as aulas de
surf, à saída do mesmo mar que o trouxe a território nacional.Foi
em São João da Madeira (Aveiro), através da Cruz Vermelha local, que
lhe foi dada a oportunidade de integrar o “Waves in You”, um projeto
destinado a crianças migrantes e refugiadas que assume como missão a
promoção do bem-estar psicológico e a inclusão social de que é exemplo
Yankuba.De prancha na mão, o rapaz de 16
anos que não sabia nadar diz estar a começar a aproveitar. Vê nos
portugueses e em Portugal um país seguro e amigável, para o qual gostava
de contribuir.“O meu maior sonho é
tornar-me uma pessoa melhor na vida, melhor para mim, para a comunidade e
para Portugal. Eu gostava de contribuir para o desenvolvimento
nacional”, afirmou.Mariana Barbosa,
coordenadora de saúde mental no projeto, investigadora e docente da
Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica (FEP-UCP),
também ela praticante da modalidade, explica que os benefícios da
prática do surf são hoje reconhecidos cientificamente, seja enquanto
ferramenta terapêutica para tratar problemas como o stress
pós-traumático, a ansiedade ou a depressão, seja pelo seu impacto em
matéria de inclusão social e melhoria da qualidade de vida.Desenvolvido
pela Fish Surf School, sediada em Matosinhos, em parceria com a
Universidade Católica e o Instituto Universitário de Ciências da Saúde, o
projeto, que arrancou em 2023, combina estratégias de educação não
formal e formal, através de sessões de surf dinamizadas por um instrutor
e uma psicóloga.Numa primeira fase, o
programa-piloto envolveu cinco crianças – com idades compreendidas entre
os 6 e os 10 anos, todas beneficiárias da MEERU Aproxima, uma
associação dedicada ao apoio às comunidades de migrantes e refugiados, a
que se juntam agora 10 jovens, entre os 11 e os 17 anos.“Neste
momento, os resultados são mais qualitativos, uma vez que falamos de
grupos pequenos [um primeiro grupo com crianças e agora o segundo com
adolescentes]. Estamos em processo de análise das entrevistas aos
voluntários para perceber o impacto [emocional e psicológico]”, adiantou
a investigadora que aponta para uma maior autonomização, melhoria de
confiança e da capacidade de interação em contexto de grupo como maiores
evidências do impacto do projeto.O
objetivo é agora fazer “escalar o projeto” e oferecer esta oportunidade a
mais crianças, sublinha a especialista, que espera que, com
financiamento público, possa no futuro ser feita uma avaliação
quantitativa do impacto do projeto que acolheu, até ao momento, crianças
da Gâmbia, Roménia, Síria, Marrocos e Afeganistão.“No
mar não existem nacionalidades. Somos todos iguais”, afirmou a
investigadora que, enquanto voluntária, testemunhou a transformação da
ilha turística Lesbos, na Grécia, num enorme campo de refugiados.Como
Yankuba, Abdul Bacit Jabar, de 11 anos, entregou-se de corpo e alma à
experiência. Há mais de dois anos que saiu do Afeganistão e procurou
refúgio em Portugal, onde conquistou, para além de novos amigos, as
ondas da praia de Matosinhos. Com ajuda do treinador já se equilibra na
prancha, quase tão bem como fala português.“No
início foi difícil, mas tentei aprender e estou a gostar. Na aula
anterior consegui levantar-me na prancha”, contou, com a felicidade de
quem já se sente em casa no mar português.Para
Diogo Silveira, a quem cabe a tarefa de ensinar os princípios basilares
da modalidade, está hoje claro o papel do surf enquanto elemento de
transformação “social, emocional e psicológica”.Assumindo-se
“como um mero ajudante” num projeto no qual, confessa, já ganhou mais
do que ofereceu, Diogo reconhece hoje a importância da linguagem não
verbal e da escuta ativa enquanto elemento de acolhimento e de promoção
de bem-estar.Para Ana Rita Pereira,
assistente social na Cruz Vermelha de São João da Madeira, onde estão a
ser acompanhados estes menores, o impacto deste projeto assemelha-se
quase às ondas que enfrentam a cada domingo.“Há
um enorme contributo - e que os conheço desde o dia em que chegaram a
são João da Madeira e os vejo agora - que é a confiança nos serviços.
Numa fase inicial desconfiavam de qualquer coisa que lhe pedíssemos,
mesmo que fossem obrigações legais ou a simples ida à escola. Agora é
diferente, já são eles que tomam a iniciativa”, explicou, acrescentando
que idêntica mudança é observável nas famílias.O
projeto, assinala a psicóloga Beatriz Duarte que os acompanha na Cruz
Vermelha, permitiu até desconstruir o discurso de ódio que aparece nas
redes sociais.“Mesmo que surja esse tipo
de receio [de discriminação], eles próprios substituem fazendo a
comparação com a realidade [na qual estão inseridos]”, rematou.De
acordo com a Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), em 2023,
Portugal recebeu cerca de 2.600 novos pedidos de asilo, sendo as
principais nacionalidades a Gâmbia, o Afeganistão e a Colômbia.No
final de 2023, existiam em Portugal cerca de 1.300 requerentes de
asilo, 3.800 refugiados e beneficiários de proteção subsidiária e 59.400
titulares de proteção temporária, revela o relatório de tendências
globais de 2024.Em maio, o número de
deslocados forçados em todo o mundo tinha já atingido novos níveis
históricos, ascendendo a 120 milhões, o equivalente à população do
Japão, o 12.º maior país do mundo.